Depois de duas tentativas frustradas, a Câmara dos Deputados aprovou ontem, por 264 votos a favor, 213 contrários e duas abstenções, o projeto de lei que muda o artigo 618 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e permite que convenções e acordos coletivos de trabalho sobreponham-se à lei. As novas normas valerão por dois anos. Para a mudança entrar em vigor, terá de ser aprovada ainda pelo Senado. Lá, a aprovação deverá ser mais difícil que na Câmara porque o PMDB e os partidos de oposição, contrários à proposta, têm 42 votos, número mais do que suficiente para derrotar a proposta.

Na votação de ontem, o governo obteve nove votos a mais do que na quarta-feira, quando a sessão foi anulada por causa de uma pane no sistema eletrônico de votação. O quórum também aumentou. O governo mobilizou sua base, usando como exemplo da vitória a lista da sessão anulada, que registrou 255 votos a favor das mudanças, 206 contrários e 2 abstenções. Ontem, a bancada do Paraná manteve a disposição de votar com o governo. Dos 27 deputados paranaenses que estiveram no plenário, 19 disseram sim às mudanças na CLT.

Os governistas aprimoraram o discurso em defesa da proposta. O líder do PFL na Câmara, Inocêncio Oliveira (PE), estava preparado para rebater os argumentos da oposição contrários ao projeto. E lembrou até de exemplos de flexibilização da legislação trabalhista adotada em outros países. ''A Inglaterra, que flexibilizou a sua legislação, hoje tem o menor índice de desemprego. A Espanha, que não o fez, tem 18% de desemprego e paga um preço muito alto por isso.''

O governo sabia desde a manhã que havia clima favorável à aprovação do projeto. Numa reunião realizada entre o secretário-geral da Presidência, Arthur Virgílio, os líderes governistas, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, o ministro do Planejamento, Martus Tavares, e o secretário-executivo da Fazenda, Amaury Bier, foram feitas as avaliações que confirmavam a vantagem do governo. ''A cada dia a opinião pública vai ficar mais a favor do projeto porque os empregados celetistas estão verificando a importância das modificações na CLT'', disse o deputado Ricardo Barros (PPB-PR), vice-líder do governo.

O líder do PT, Walter Pinheiro (BA), disse que confia no Senado para evitar que o projeto seja aprovado em definitivo. ''O governo operou a sua máquina, mas nós ganhamos o debate na sociedade'', disse Pinheiro.''A pressão do governo só funciona porque os deputados aceitam'', afirmou, ao admitir a derrota pouco antes da redação.

Ao contrário das tentativas anteriores de votação das mudanças na CLT, a sessão de ontem foi mais tranquila. O único momento que registrou maior tensão foi quando o deputado Babá (PT-PA) disse que Inocêncio Oliveira estava de óculos escuros durante a sessão por ''vergonha de aparecer diante da TV Câmara em defesa do projeto''. Inocêncio, na verdade, escondia uma conjuntivite no olho esquerdo. O pefelista reagiu: ''Pior que não enxergar é ser cego das idéias.''

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