Parlamentares descontentes com os resultados das pesquisas eleitorais deste ano conseguiram ontem número necessário de assinaturas para criar a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que deve apurar possíveis irregularidades cometidas pelos institutos. Na Câmara, a coleta resultou em 181 assinaturas, 10 além do necessário. A criação da comissão foi apoiada por 27 senadores, apoio mínimo fixado pelo regimento conjunto da Câmara e do Senado. Mas a instalação da CPI não está garantida.
Há deputados e senadores, como Esperidião Amin (PPB-SC), que acreditam que a idéia não sairá do papel. Nesse caso, vai ser repetida a CPMI criada dia 12 de maio último para investigar falsificação de medicamentos que não conseguiu avançar nos seus trabalhos. ‘‘Não creio que vá adiante’’, previu Amin. ‘‘Mas pode resultar no aperfeiçoamento legal do uso das pesquisas.’ O presidente do PMDB, Jader Barbalho (PA), disse que a apuração deve ser feita ‘‘para aperfeiçoar a legislação sobre o assunto’’.
Ademir Andrade (PSB-PA), derrotado na eleição ao governo do Pará, autor do requerimento, entregou ontem o pedido de criação da CPMI ao presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA). Para ACM, a iniciativa deve resultar na regulamentação das pesquisas e não na sua proibição. ‘‘Acho que os resultados eleitorais talvez justifiquem a comissão para que se crie uma legislação específica’’, defendeu. Andrade previu que a investigação vai demonstrar que houve manipulação no resultado das pesquisas.
Segundo ele, as surpresas nos resultados foram tantas que os responsáveis pelos institutos de pesquisas não têm conseguido convencer a população de que as contradições se originaram em simples erros ou em falhas da metodologia aplicada. ‘‘É muito difícil enfrentar uma maracutaia desse tamanho’’, protestou da tribuna, ao revelar aos colegas senadores a injustiça de que acha que foi vítima na eleição em seu Estado. Ele anexou ao requerimento cópia da queixa-crime feita pelo PT, na Justiça de São Paulo, contra o Ibope. O partido acusa o instituto de ter manipulado os resultados das pesquisas no Estado para prejudicar a candidata Marta Suplicy.
Ademir Andrade leu em plenário o texto resultante da gravação de uma conversa por telefone entre o senador Júlio Campos (PFL-MT), derrotado na eleição ao governo de seu Estado, e o responsável pelo Ibope, Carlos Montenegro. Diante da queixa de Campos de que seus adversários estariam espalhando que estavam de 10 a 8 pontos na sua frente, Montenegro teria respondido: ‘‘Mas espalha também, diz que você está 5 pontos na frente, Cada um fala o que quer.’ O senador disse que o ‘‘conselho’’ mostra a que ponto chegou ‘‘a impunidade e a ousadia dos institutos de pesquisas’’.
A comissão passará a existir quando o requerimento pela sua criação for lido numa sessão do Congresso. Os lideres dos partidos terão um prazo para indicar seus representantes. Se não o fizerem, o presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), pode substituí-los e fazer as indicações. O senador Ramez Tebet (PMDB-MS) disse que não vê necessidade dessa comissão. ‘‘É ocupar o Congresso demais’’, disse. ‘‘Até porque as pesquisas não erraram tanto.’

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