Brasília - O presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE), não deverá ser presidente por muito mais tempo. Ontem, ele admitiu a parlamentares que tem apenas duas hipóteses: renunciar ao mandato de vez ou renunciar à presidência para brigar pelo mandato. A decisão deve sair na próxima segunda-feira em um encontro com seus colegas da Mesa e líderes dos partidos aliados.
Severino também deve conversar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda hoje. A conversa foi acertada na tarde de ontem, em um almoço entre Severino e o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), o líder do PCdoB, Renildo Calheiros (PE), e o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP). Lula, no entanto, deve chegar de Nova York, onde estava na reunião de Cúpula das Nações Unidas, apenas no final da tarde.
Antes de decidir por qualquer das duas hipóteses, o presidente da Câmara quer consultar suas bases em Pernambuco. No início da noite de ontem, Severino ainda analisava se iria pessoalmente ao Estado ou ficaria em Brasília, onde pode ficar mais isolado, e faz as consultas por telefone. ''Acredito que ele não vai ficar na presidência'', disse o deputado Nilton Capixaba (PTB-RO), ao sair de uma conversa com o presidente da Câmara.
O presidente da Câmara passou a ser ameaçado de cassação depois que o empresário Sebastião Buani, que explora a concessão de um restaurante na Câmara, o acusou de cobrar propina para manter contratos na Casa. A situação de Severino ficou por um fio depois que Buani apresentou um cheque no valor de R$ 7.500, sacado por uma das secretárias da presidência da Câmara.
O prazo para Severino renunciar ao mandato sem perder seus direitos políticos deve ser a próxima terça-feira. Essa deve ser a data em que a Mesa da Câmara enviará o pedido de cassação do presidente, feito pelos partidos de oposição, ao Conselho de Ética. A partir daí, com o processo aberto, mesmo que renuncie, Severino perde os direitos políticos por oito anos.
Mas, ainda ontem, a tendência mais forte do presidente era continuar a briga. Ele chegou a dizer a assessores que não sairia da Câmara enquanto não provasse sua inocência e não sairia como ''recebedor de propina''. Em entrevista ao colunista Jorge Moreno, do jornal ''O Globo'', Severino afirmou que, se enfrentar o processo do cassação, ganha em plenário e que não está abandonado.
A romaria de deputados do chamado ''baixo clero'' (parlamentares sem expressão) à residência oficial, no Lago Sul, mostra que o presidente pode ter razão. ''Sou amigo incondicional do Severino. Nessas horas os amigos tem que apoiar'', disse Cleonâncio Fonseca (PP-SE), um dos que foram visitar o presidente.
As conversas sobre o que deverá fazer tomaram boa parte do dia do presidente da Câmara ontem. Além dos líderes da base governista, vários deputados estiveram na casa.

mockup