Brasília - Acusado por Roberto Jefferson (PTB-RJ) de ser o inventor do ''mensalão'', o deputado Carlos Rodrigues (PL-RJ) admitiu ontem ter se reunido com o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares e com o ex-secretário-geral do partido Sílvio Pereira para fazer negociações políticas. Em depoimento ao Conselho de Ética da Câmara, Rodrigues disse que em nenhum momento discutiu ajuda financeira com Delúbio, mas revelou uma faceta até agora pouco conhecida do ex-tesoureiro, que se afastou anteontem do cargo - a de negociador político.
''Estive algumas vezes com o Delúbio depois da eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (em 2002). Discutimos alianças entre o PT e o PL pelo país'', declarou. Ele citou como exemplos as gestões feitas pelo petista junto a Rodrigues para que o PL apoiasse candidaturas petistas às eleições municipais de Belém (PA) e Recife (PE), no ano passado.
Em outra ocasião, o ex-tesoureiro teria feito as vezes de ''chanceler'', ao pedir que a Igreja Universal, à qual o deputado era ligado à época (foi conhecido como ''Bispo'' Rodrigues), apoiasse um candidato socialista a presidente de Moçambique. A Universal tem atividades naquele país africano, ex-colônia portuguesa.
Rodrigues também confirmou ao Conselho que negociou o loteamento de cargos no governo com Pereira, que se afastou da Secretaria-Geral do PT na segunda-feira passada. Ele listou os cargos que indicou na administração federal: duas diretorias da Companhia Docas do Rio de Janeiro, um diretor do Serviço de Patrimônio da União, o diretor-administrativo de Portus (fundo de pensão do sistema portuário) e um diretor do Dnit (Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes). ''Foram indicações do PL, mas nunca existiu a orientação para que os diretores contribuíssem com o partido'', afirmou.
Em vários momentos do depoimento Rodrigues negou que seja o ''pai do mensalão'', esquema que teria surgido, de acordo com Jefferson, na Assembléia Legislativa do Rio, pago com recursos da empresa lotérica do Rio, a Loterj. ''Nunca fui deputado estadual. Estive na Assembléia no máximo dez vezes na minha vida, incluindo a minha diplomação como deputado. É uma coisa absurda ele (Jefferson) dizer isso.''
Também negou ter pressionado o líder do PTB na Câmara, José Múcio (PE) para aceitar o ''mensalão'', em reunião da qual teriam participado também Pedro Corrêa (PP-PE), Pedro Henry (PP-MT) e Valdemar da Costa Neto (PL-SP). ''Tive reuniões com esses deputados, mas para tratar de reforma política'', declarou, repetindo versões dadas por Henry e Múcio.
Rodrigues chorou duas vezes no início do depoimento de três horas, ao explicar sua briga com a Universal - ele perdeu o título de bispo após ter sido envolvido com o escândalo da Loterj. A sessão chegou a ser brevemente interrompida para que ele se restabelecesse. ''Passei fome, passe frio para construir essa igreja, dei 29 anos de minha vida a ela. E não foram corretos comigo, não me concederam o benefício da dúvida'', afirmou.

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