Deputado diz que ruralistas incitam violência no campo
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quarta-feira, 17 de março de 1999
Leandro Donatti 
Pelo segundo dia consecutivo, a queda-de-braço da União Democrática Ruralista (UDR) com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) esquentou os ânimos dos deputados na Assembléia Legislativa. Nereu Moura (PMDB) acusou a bancada ruralista, integrada basicamente por deputados aliados do governador Jaime Lerner (PFL), de incitar a violência no campo. Os deputados estão mexendo com um barril de pólvora ao exigirem do governo o cumprimento de ordens de despejo contra o MST, em 15 dias.
Para Moura, a Assembléia não deve comprar briga de um segmento (nesse caso, os proprietários de terras). Se ocorrer algum incidente nessas desocupações, o Legislativo será responsabilizado. E já houve muitos conflitos sangrentos no Paraná, alertou, numa referência, entre outras, à desocupação turbulenta ocorrida em Santa Isabel do Ivaí, em 97, quando policiais, ruralistas e sem-terra se confrontaram numa desocupação. Lerner está sendo prudente em não cumprir esses despejos, defendeu.
O deputado do PMDB disse que o governo do Paraná não pode assumir uma responsabilidade que é do governo federal e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Não podemos tirar os sem-terra à força. Os deputados governistas precisam entender isso. Se os ruralistas estão se preparando para o pior, os sem-terra também estão, ressaltou. No seu discurso, ele não tratou da pressão dos ruralistas que querem a cabeça do superintendente regional do Incra, Petrus Abib.
O pronunciamento provocou reações na bancada ruralista. É a opinião dele. Queremos que o governo cumpra a lei, devolveu Miltinho Pupio (PSC). Hermas Brandão (PTB) também reagiu. Lei é para ser cumprida. Caso contrário, não há necessidade de haver Justiça no Paraná, afirmou. Segundo Hermas Brandão, a falta de posição do governo estadual em cumprir as ordens judiciais está melindrando até o Judiciário. Que está sendo desmoralizado junto nesse processo.
Dono de uma propriedade em Reserva (98 km ao norte de Ponta Grossa), o ex-secretário da Agricultura Hermas Brandão deu a entender ontem que a falta de uma política agrária do governo Lerner está provocando uma desova de sem-terra no Paraná. Em Sapopema, por exemplo, 70 famílias tinham origem em Santa Catarina. Segundo o deputado, sem-terra de São Paulo e Mato Grosso também estão se deslocando para o Estado. O governo do PT está mandando essa gente pra cá, acusou.
Cesar Silvestri (PTB) também entrou no debate. O deputado criticou o Incra e disse que a estatal cruzou os braços e está sob a batuta do MST. Eu esperava uma posição mais enérgica do Incra, reclamou. Para Silvestri, o maior de exemplo de prejuízo provocado pelo MST foi a invasão, há cerca de quatro meses, de uma área de 300 hectares às margens da BR-277, no distrito de Guará, próximo a Guarapuava. Era um projeto piloto lançado pelo governo federal. O MST invadiu a área e ninguém consegue tirá-los.
Irineo Colombo (PT) saiu em defesa dos sem-terra. Eles também são brasileiros, assim como os brasiguaios que estão abandonados, a mercê da sorte. Colombo disse que existem laudos comprovando a improdutividade das terras ocupadas pelo MST em todo o Paraná. Ao todo, existem 102 áreas ocupadas hoje no Estado. Do total, 44 com ordem de despejo já emitida pelo Tribunal de Justiça.


