Brasília - Única deputada até agora a confirmar a existência de uma suposta ''mesada'' paga a parlamentares, Raquel Teixeira (PSDB-GO) disse ontem, no Conselho de Ética da Câmara, que recebeu oferta de R$ 30 mil mensais mais ''luvas'' de R$ 1 milhão do líder do PL na Câmara, Sandro Mabel (GO), para ingressar no seu partido. Mabel prestou depoimento ao Conselho logo após Teixeira e negou todas as acusações.
A deputada (licenciada desde janeiro por ter assumido a Secretaria de Ciência e Tecnologia de Goiás) admitiu no depoimento de duas horas e meia que em nenhum momento Mabel disse que a mesada estaria atrelada à obrigação de votar favoravelmente ao governo. ''Mabel disse que entrar em um partido do governo traria vantagens, mas em nenhum momento foi colocada a vinculação com projetos do governo. Não houve atrelamento.'' O termo ''mensalão'' não foi citado.
O suposto diálogo teria ocorrido em 18 de fevereiro de 2004 no plenário 16 da Câmara. ''O deputado Sandro Mabel começou a conversa dizendo que o PL queria se repaginar, ter uma cara nova. E precisava de uma mulher que fizesse diferença. Confesso que me senti lisonjeada'', disse ela.
A seguir, ''Mabel disse que eu receberia R$ 30 mil por mês, que poderiam chegar a R$ 50 mil. Em dezembro, eu receberia mais R$ 1 milhão.'' Ele afirmou que ficou ''perplexa'' com a proposta e a recusou sem fazer perguntas. Não soube de onde viria o dinheiro. ''Ele não me deu nenhum detalhe, e eu também não perguntei.''
Teixeira disse ter relatado o ocorrido ao governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), que em evento em Rio Verde (GO), em maio de 2004, teria descrito o episódio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva dentro de um carro.
Teixeira não denunciou o fato, o que foi cobrado por integrantes do Conselho. ''Vossa Excelência, ao não tomar providências, prevaricou'', afirmou José Carlos Araújo (PL-BA). Ela se justificou afirmando que não tinha provas: ''Era uma conversa sem testemunhas. Seria a minha palavra contra a dele. Qualquer pessoa sensata só fala o que pode provar''.
Após a conversa, teria havido um segundo encontro, meses depois, numa comissão da Câmara. ''Ele (Mabel) me procurou profundamente irritado. Eu disse que não poderia deixar de relatar o ocorrido ao meu líder político (Perillo).'' No depoimento, a deputada foi inquirida duramente por deputados da base governista, principalmente representantes do PL no Conselho, Edmar Moreira (RJ) e Paulo Marinho (MA).
Ela foi obrigada a admitir dois atos questionáveis: ela mantém três assessores seus no gabinete do suplente, Sérgio Caiado (PP), e manteve o marido no apartamento funcional em Brasília por quase cinco meses após ter se licenciado. A deputada revelou ainda que recebeu uma ligação do Palácio do Planalto no início do mês, mas não atendeu a chamada e não soube dizer quem telefonou.

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