Depois da crise, Arraes recupera imagem
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domingo, 21 de dezembro de 1997
Agência Estado Recife 
Arquivo FolhaNão pegaMiguel Arraes: pelo menos por enquanto, governador conseguiu sair ileso das denúncias de irregularidads na emissão de títulos Há seis meses, o governador de Pernambuco, Miguel Arraes (PSB), amargava um dos piores momentos de seus 50 anos de vida política. Com a imagem manchada pelo escândalo dos precatórios e a popularidade em baixa, passou um período recluso e tudo levava a crer que o mito Arraes havia se quebrado.
Ao invés disso, o governador, de 81 anos, conseguiu sair
ileso - pelo menos até agora - do caso dos precatórios, retornou ao cenário nacional como o grande articulador das esquerdas, fortaleceu o PSB com o ingresso de nomes de expressão como a ex-prefeita de São Paulo Luíza Erundina, e alimenta a possibilidade de se candidatar a um quarto mandato à frente do Governo do Estado.
Com as finanças estaduais saneadas com os recursos obtidos através da venda de títulos para pagamento de precatórios, pagou antecipadamente o 13º salário do funcionalismo e acena com a perspectiva de investimentos de R$ 1,2 bilhão somente em 1998, um ano eleitoral. Esse valor equivale ao que Pernambuco normalmente investiria em 10 anos e será conseguido com a venda da Empresa Energética de Pernambuco (Celpe) que deverá alcançar um preço final em torno de R$ 2,5 bilhões.
Qualquer outro no seu lugar teria sucumbido, afirma um assessor do governador. É um fenômeno, reconhece uma das expressões do PT-PE, deputado estadual João Paulo. Para o diretor de comunicação do Governo, Ricardo Leitão, a virada foi possível devido ao extremo senso de momento político do governador.
Ele analisa que Arraes soube se preservar no caso dos precatórios, incumbindo o neto e secretário de Fazenda, Eduardo Campos, de fazer a defesa da operação. Também soube aproveitar o fato de ser o único capaz de conversar com todas as correntes políticas, passando a servir de elo de ligação na mobilização por uma candidatura de centro-esquerda para confrontar o presidente Fernando Henrique.
Além disso, Leitão destaca a reputação construída por Arraes, uma das figuras públicas que mais teve a sua vida vasculhada na história. Nenhuma acusação de corrupção contra ele tem aderência, afirma.
O PMDB e o PFL, opositores de Arraes, vêem a coisa sob outro ângulo. Arraes não deu a volta por cima, frisa a líder do PFL na Assembléia Legislativa, Tereza Duere. Ele está usando com maestria o cargo de presidente nacional do PSB, mas isso não se reflete dentro do Estado.
Segundo ela, os recursos da venda da Celpe deverão ser
usados eleitoralmente, para estancar a debandada de muitos aliados para o lado do adversário Jarbas Vasconcelos, ex-prefeito do Recife e virtual candidato da aliança PMDB/PFL ao governo. A venda dos títulos para pagamento dos precatórios foi efetuada às vésperas das eleições municipais e Arraes conseguiu maioria absoluta das prefeituras, observa. Agora, novamente às vésperas de uma eleição, o governador abandona um discurso radical contra a privatização e anuncia a venda da Celpe.
O secretário-geral do PMDB, Carlos Eduardo Cadoca acrescenta que as pesquisas de opinião pública não sofreram alteração. Ele assegura que Jarbas continua com um índice de preferência entre 52 e 55% e que Arraes permanece entre os 22 e 25%. Lembra, ainda, o alto índice de rejeição do governador - 53%. Ricardo Leitão discorda. Segundo ele, as pesquisas do PSB apontam para uma queda de Jarbas, que estaria abaixo dos 50% da preferência, enquanto Arraes teria conquistado 30% mesmo sem ser oficialmente candidato. E, embora admita que Arraes tem um índice de rejeição superior ao de Jarbas, afirma que ele não alcança os 50%.
A verdade é que a eleição estadual, que parecia definida, com Jarbas aparecendo como única estrela, já não está mais, diz o petista João Paulo. Prova disso, na sua avaliação, são os constantes ataques de Jarbas e do PMDB ao governador. A agressividade do tom das denúncias de irregularidades na administração leva um dos líderes do PSDB-PE, João Braga, a temer por uma campanha suja e violenta. Se o governador é apontado como ladrão a um ano da eleição, imagine quando a coisa esquentar, alerta.
Para o secretário-geral do PMDB, o partido age apenas como oposição, limitando-se a denunciar a bandalheira do caso dos precatórios, que incluiu até falsificação de documentos. Ele frisa que se o governo não tivesse maioria na Assembléia Legislativa e no Tribunal de Contas do Estado (TCE-PE) - que o absolveram do escândalo - Arraes estaria em situação pior que o governador de Santa Catarina, Paulo Afonso Vieira, que se tornou inelegível.
Cadoca observa que a campanha eleitoral só vai começar no
seu devido tempo e que o PMDB torce para que o candidato seja Arraes. É ele que queremos derrotar, afirma.
O governador avalia as críticas dos adversários como uma
forma fascista de encarar os fatos. Ele não admite ser acusado de desonesto e confia no julgamento do povo. Ele explicou que na situação de crise em que se encontrava o Estado, há um ano e meio, só dispunha de duas saídas - emitir os títulos ou vender a Celpe, o que teria sido um erro na época, porque a companhia não estava valorizada como hoje.
Ao participar de um debate numa emissora de rádio, o governador disse não ter decidido ainda se sairá candidato. Afirmou não desejar isso, mas garantiu que não volta para casa desmoralizado.


