Nos dois depoimentos prestados esta semana ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), o ex-vereador Orlando Bonilha (PR) narrou quase duas dezenas de casos de corrupção na Câmara Municipal. O teor inteiro das declarações foi tornado público ontem pela Justiça. Além das acusações, Bonilha conta que foi pressionado pelos vereadores Sidney de Souza (PTB), Gláudio Renato de Lima (PT), Flávio Vedoato (PSC) e Renato Araújo (PP) para renunciar ao mandato e não confessar ‘‘os problemas da Câmara’’ aos promotores. Ele afirmou que Vedoato e Araújo lhe ofereceram R$ 15 mil pela sua renúncia. ‘‘Sidney era o mais agressivo (nas pressões) e Gláudio disse que iria abrir um processo (contra o declarante) e lhe tirar o resto de seu patrimônio se contasse a verdade dos fatos’’, declarou.
  De acordo com o ex-vereador, as irregularidades na Câmara eram sempre negociadas pelo parlamentar que tivesse o primeiro contato com algum particular interessado em projetos de lei. Este vereador tratava as negociações financeiras e depois fazia a partilha do dinheiro com os colegas. A seguir, os principais tópicos do depoimento:
Lista do Caldarelli
  ‘‘A lista manuscrita por Renato Araújo é integralmente verdadeira, todos os vereadores receberam os valores ali citados’’, disse - em referência a nove vereadores que teriam recebido propina para doar um terreno às margens do Lago Igapó I para o empresário Marcelo Caldarelli. Bonilha reconhece ter recebido R$ 6 mil e acusa Sidney de Souza, Flávio Vedoato, Jamil Janene, Luiz Carlos Tamarozzi, Gláudio de Lima, Henrique Barros, Osvaldo Bergamin e Renato Araújo de receberem R$ 3 mil cada um. Bonilha se compromete a contar o caso em detalhes à Justiça.
Shirogohan
  A alteração da lei de zoneamento para legalizar a boate erótica teria envolvido um ‘‘cala boca’’ articulado pelo presidente da Câmara, Sidney de Souza. Ele teria entregue a parte da cada vereador de forma discreta em um churrasco oferecido pelo dono da boate. Teriam recebido propina, além de Bonilha e Sidney, os vereadores Gláudio, Tamarozzi, Renato Lemes, Renato Araújo, Vedoato, Bergamin e Henrique Barros. Bonilha disse que Sidney pode ter ficado com valor ‘‘muito superior’’ ao dos outros. O advogado
Antônio Amaral teria ajudado na negociação. O prefeito Nedson Micheleti, que esteve no churrasco, não é citado no depoimento.
Mensalinho da TCGL
  Diz que a propina mensal da TCGL era distribuída por um vereador - que recebia a verba do diretor da empresa, Gildalmo de Mendonça. ‘‘O coordenador já foi Célio Guergoleto, Renato Araújo, Sidney de Souza’’ e o próprio Bonilha. Na atual legislatura, constam da lista os vereadores Tamarozzi, Gláudio, Marcelo Belinati, Sandra Graça, Sidney, Vedoato, Osvaldo, Renato Araújo, Jamil e Bonilha. O valor atual seria de R$ 1.600 mensais.
Shopping
  Para alterar lei de zoneamento e permitir instalação de um shopping no Conjunto Milton Gavetti, o empresário Alfredo Khouri ‘‘fez uma proposta’’ e executou o pagamento de R$ 120 mil, em duas parcelas, aos vereadores Gláudio, Vedoato, Sidney, Henrique Barros, Tamarozzi, Bergamin, Bonilha e Renato Araújo. A propina teria sido negociada com o empresário pelos vereadores Gláudio e Renato.
Get
  A aprovação de doação de imóvel para a empresa Get teria envolvido acerto articulado por Vedoato e Sidney, no valor de R$ 80 mil. Segundo Bonilha, os dois ‘‘comeram sozinhos’’, quer dizer, não distribuíram a quantia aos outros. Depois, para alterar lei de zoneamento a favor da empresa, houve um novo ‘‘cala boca’’, de R$ 3 mil, beneficiando Sidney, Vedoato, Araújo, Gláudio, Tamarozzi, Bonilha e Bergamin.
Estância Bom Tempo
  Para viabilizar o empreendimento, haveria propina negociada por Bergamin e Renato. Os dois, além de Bonilha, Gláudio, Tamarozzi, Bergamin, Sidney, Sandra e Marcelo Belinati teriam recebido entre R$ 3 mil e R$ 5 mil. Bonilha diz que Gláudio, Vedoato e Tamarozzi reconheceram a negociação em conversa com ele.
Recanto dos Saltos
  Bonilha relata propina para aprovação do empreendimento, em contato com Paulo Kishima - representante dos condôminos. O valor variou de R$ 3 mil a R$ 5 mil. Teriam recebido, além de Bonilha, os vereadores Sidney, Tamarozzi, Renato Araújo, Bergamin, Vedoato, Gláudio, Sandra e Marcelo.
Gastech
  A doação de imóvel para a empresa de gás natural Gastech teria envolvido propina, negociada por Vedoato e Henrique Barros, no valor de R$ 3 mil a R$ 8 mil, para os dois articuladores, além dos vereadores Renato Araújo, Sidney, Bergamin e Bonilha.
Eleições
  Bonilha diz que comprou votos para sua eleição à presidência da Câmara. Roberto Fu teria recebido R$ 5,5 mil, Bergamin R$ 20 mil, Tamarozzi R$ 8 mil, Henrique Barros R$ 10 mil, Sidney e Flávio R$ 50 mil cada. Na eleição de 2007, o atual presidente, Sidney de Souza, teria pago até R$ 70 mil para Bonilha e Vedoato, R$ 20 mil para Bergamin e R$ 5 mil para Jamil Janene.
Motéis
  Na legislatura passada, por articulação de Sidney, foram pagos quase R$ 100 mil de propina para aprovação de lei que impedia instalação de novos motéis aos vereadores Sidney, Bonilha, Vedoato, Tamarozzi, Renato Araújo, Bergamin e Henrique Barros e, posteriormente, para regulamentar os alvarás de dois motéis.
Divisão de salário
  Bonilha disse que ‘‘divisão de salários é prática antiga e normal’’ na Câmara. O atual vereador Rubens Canizares, quando era diretor da Câmara, devolvia R$ 2 mil para o presidente - na sua gestão e na de Sidney de Souza.
Postos de combustível
  Alteração de leis de zoneamento para permitir instalação de postos rendeu R$ 8 mil para os vereadores Vedoato, Renato Araújo, Gláudio, Tamarozzi, Henrique Barros e Bergamin.
Vega Sopave
  Aprovação de lei orçamentária, no final da gestão do ex-prefeito Jorge Scaff, para viabilizar pagamento de débito do município com a empresa Vega Sopave gerou propina para Renato Araújo, Sidney, Tamarozzi, Antenor Ribeiro, Célio Guergoleto, Jaci Aguiar e Vedoato.
Max Lobato
  Propina de R$ 60 mil para viabilizar alteração em lei de zoneamento de interesse do empresário.

mockup