Curitiba - Um depoimento prestado pelo doleiro Alberto Youssef ao juiz Sérgio Fernando Moro, da 2 Vara Federal Criminal, em Curitiba, revela que pode não ter sido apenas empresários os beneficiários de transações realizadas pela Companhia Paranaense de Energia (Copel) nos últimos meses do governo Jaime Lerner (PSB). Políticos e integrantes do Tribunal de Contas (TC) teriam recebido, conforme Youssef, pagamentos vultosos em duas transações investigadas pelo Ministério Público (MP) estadual sob a suspeita de terem representado desvio de dinheiro público. Uma feita com a Associação dos Diplomados da Faculdade de Economia e Administração (Adifea) da Universidade de São Paulo (USP) e outra com a Óleos Vegetais do Paraná (Olvepar).
No depoimento, Youssef começa relatando a primeira operação que realizou a pedido do proprietário da Empresa Brasileira de Consultoria (Embracon), Maurício Roberto da Silva. No dia 13 de setembro de 2002, a Adifea teria repassado R$ 16,8 milhões à Embracon por supostos serviços de consultoria de análise tributária na Copel, que contratou a Adifea sem licitação. A Adifea, segundo apurou o MP, teria sido contratada para justificar contabilmente o desvio de recursos da Copel para conta de terceiros.
Youssef confirma a versão do MP. Ele conta que foi contratado para converter o dinheiro recebido em dólares. Para isso, ele teria cobrado uma taxa que varia entre 0,5% e 1,5%. A troca dos reais em dólares teria sido realizada em São Paulo. Youssef teria trazido em espécie para Curitiba para entregar pessoalmente a Silva. ''Esse contrato é só de fachada'', disse o doleiro em seu depoimento. Nessa transação, Youssef disse que ficou numa sala dos fundos enquanto as pessoas iam buscar o dinheiro. ''Não vi as pessoas, sei que todas tinham cargos públicos. O dinheiro era para candidatos da campanha de 2002.''
A segunda operação aconteceu em dezembro e envolveu a Olvepar. A Copel resolveu comprar os créditos tributários da massa falida da empresa, apenas com pareceres favoráveis do TC, assinados por Desirée Fregonese (com prisão decretada e foragida) e do conselheiro Heinz Herwig. A operação envolvia R$ 39,6 milhões. Os valores foram recebidos em três parcelas. Para essa operação, mais arriscada, Youssef teria pedido 2% de comissão. As parcelas foram pagas nos dias 6, 13 e 20 de dezembro de 2002.
Dois dias depois da primeira parcela ser liberada, Youssef teria levado o dinheiro pessoalmente para o escritório da Embracon. Lá ele teria conhecido o conselheiro do TC, ''Heinz'', como divulgou a Folha ontem. ''É um senhor alto, não muito alto, ele usa óculos, fala assim meio aceleradão, estabanado'', descreve no depoimento. Para ele, Youssef teria entregue mais de R$ 9 milhões, separados em várias caixas com valores que variavam entre R$ 1 milhão e R$ 2 milhões.
O conselheiro ainda teria escrito um bilhete que foi anexado aos autos. No bilhete, supostamente entregue por ele mesmo a Youssef, o conselheiro pede que o doleiro converta R$ 1 milhão em dólares. ''Ele me pediu que eu trouxesse R$ 225 mil em dinheiro vivo e o restante em dólares'', relembra. Youssef permitiu a quebra do seu sigilo telefônico para que as conversas com Heinz Herwig, cobrando a suposta transação, fossem rastreadas pela Justiça.

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