São Paulo - Se não foi suficiente para alterar a corrida presidencial, o caso da quebra pela Receita Federal do sigilo fiscal de Verônica Serra, filha do candidato tucano José Serra, provocou pelo menos dois efeitos positivos para a campanha da oposição: serviu para frear o crescimento da petista Dilma Rousseff nas pesquisas de intenção de voto e brecar a chamada ''onda vermelha'' nos Estados.
Antes do escândalo, Dilma conseguiu disparar na preferência dos eleitores, chegando a abrir 24 pontos porcentuais de vantagem sobre Serra. Agora, com o assunto sendo o centro das atenções, o crescimento parou. Na visão de aliados de Serra, pode servir para dar a freada de arrumação necessária para a campanha tentar obter votos que garantam a ida do tucano para o segundo turno contra Dilma Rousseff.
O segundo efeito foi conter o impacto da ''onda vermelha'' sobre as campanhas regionais. Com Dilma, governistas e o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva precisando dar explicações sobre o assunto, não puderam mais se concentrar apenas no apoio às candidaturas regionais estratégicas. A ideia de Lula e dos governistas era colar o crescimento de Dilma em Estados como São Paulo e Minas Gerais. São justamente os dois maiores colégios eleitorais do Brasil e onde a oposição tem chances reais de vitória.
A explicação para a oposição se baseia na mudança de agenda à qual os governistas foram submetidos. No lugar de divulgar propostas positivas ou colar na imensa popularidade do presidente Lula, os aliados de Dilma se desdobraram em dar explicações para eximir a candidata de qualquer relação com o assunto.
Do outro lado, Serra e até Marina Silva (PV), terceira colocada nas pesquisas, passaram a criticar duramente a Receita e cobraram providências em relação à quebra de sigilo, que incluiu ainda a violação dos dados de outras pessoas ligadas ao PSDB, como o vice-presidente do partido, Eduardo Jorge.
Assim, campanhas que pareciam ameaçadas diretamente pela ''onda vermelha'' colaram na cobrança por explicações do governo e de seus candidatos sobre a violação dos sigilos.
Em São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB) agiu assim e conseguiu crescer quatro pontos porcentuais na pesquisa Ibope, contendo uma eventual arrancada que o petista Aloizio Mercadante poderia conseguir, já que Lula e Dilma ampliaram sua presença no Estado com esse objetivo.
Em Minas Gerais, o tucano Antônio Anastasia adotou o mesmo expediente e se manteve em quadro de empate técnico com o governista Hélio Costa, do PMDB.
Nacional
Aliados de Serra reconhecem que os desdobramentos das investigações podem também produzir mudanças no quadro eleitoral nacional.
''Acho que é possível ainda haver uma virada'', avalia o ex-prefeito de Curitiba, Beto Richa (PSDB), líder nas pesquisas na disputa pelo governo do Paraná. ''Na minha opinião, Serra acertou ao tratar do assunto no seu programa porque as violações que aconteceram são muito graves. Já infringiram diversas vezes os sigilos. É um absurdo o que foi feito e nada é feito da parte do governo.''
O ex-prefeito do Rio Cesar Maia (DEM), candidato ao Senado e aliado de Serra, prevê que o tema ainda possa desgastar a campanha de Dilma. Ele acredita que nos próximos dias possa acontecer uma redução de suas intenções de voto num patamar de cinco pontos porcentuais. Nessa avaliação, Maia diz que o escândalo produziria impacto nos eleitores de ''classe média e média alta''.
Do lado do governo, não houve como desviar do assunto. Dilma, por exemplo, reclamou que a oposição apelava para o ''tapetão'', ao tentar associar sua candidatura às quebras de sigilo.
Já o ministro das Relações das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, gravou vídeo, pedindo que os apoiadores de Dilma mantivessem a tranquilidade.
''Esse desespero da oposição está parecendo com aqueles times de futebol, aos 30 minutos do segundo tempo, que estão perdendo por 2 a 0, e começam a dar canelada, puxão de camisa, tomam cartão amarelo, cartão vermelho e não conseguem dar um chute a gol. Por isso, essa é a hora de manter a tranquilidade e a humildade'', afirmou o ministro.

mockup