São Paulo - As sete malas apreendidas com R$ 10,2 milhões da Igreja Universal do Reino de Deus vieram do dízimo dos fiéis, apressou-se em justificar o bispo e deputado federal João Batista Ramos da Silva, eleito pelo PFL-SP e expulso do partido na semana passada. Havia ali R$ 2 mil em notas sequenciais, um punhado de cédulas falsas, pouquíssimas de R$ 5 e nenhuma de R$ 1 ou R$ 2, muito comuns nas ofertas dos fiéis. Nem mesmo uma folha de cheque. Dados suspeitos que podem ser ignorados, caso o Supremo Tribunal Federal considere que a Polícia Federal não tem competência para investigar, já que o bispo por ser parlamentar tem foro privilegiado. E, assim, mais um caso aumentará o rol de investigações contra a poderosa Universal que não são levadas adiante.
A lista de acusações criminais contra a Igreja Universal e seus bispos dirigentes é extensa: sonegação, fraude fiscal, lavagem de dinheiro, corrupção ativa, evasão de divisas, contrabando e falsidade ideológica. Isso sem contar as ações de danos morais e estelionato movidas por ex-fiéis que se sentem lesados no tempo em que frequentavam a igreja. ''Há uma dificuldade gigantesca em se provar qualquer coisa contra a Universal'', comentou um procurador da República. ''O dízimo pode justificar quase tudo.''
O bispo Edir Macedo tem até o dia 3 para apresentar na 39 Vara Cível de São Paulo sua contestação numa ação que um empresário move contra ele. Ex-obreiro, o ex-deputado evangélico Waldemar Alves Faria Junior quer reaver doação de US$ 3,2 milhões feita para o criador da Universal em 1997. Ele foi um dos maiores dizimistas da igreja. Afirmando que estava cego pelo ''fervor e amor'' à religião, doou até um BMW blindado. Tudo para ajudar Edir Macedo, que dizia precisar de um empréstimo. ''Ele fez espontâneo. Ninguém obrigou'', justificou o bispo João Batista.
Entre os procedimentos instaurados pelo Ministério Público Federal (MPF), está um outro envolvendo o empresário e Edir Macedo. Dono de uma empresa de telesorteios, a Abba Produções e Participações, Faria Junior pagou mais de R$ 15 milhões entre 1997 e 1999 à ''Rede Record'' pela veiculação de anúncios dos sorteios 0900. Mas esse tipo de jogatina foi proibida em julho de 1998, e a cobrança feita com duplicatas posteriores a essa data.
No STF, há dois processos que investigam integrantes da Igreja Universal, entre eles o senador Marcelo Crivella e o bispo João Batista. Em um deles, de falsidade ideológica e crime contra o sistema tributário, ambos são acusados de terem permanecido como dirigentes da ''TV Cabrália'', na Bahia, ao assumirem os seus mandatos parlamentares. ''Esse processo é um besteirol'', disse o bispo à reportagem. ''O Ministério das Comunicações não transferiu a tempo (a razão societária). Assinei uma procuração para uma outra pessoa administrar.''
Há mais de dez anos o MPF investiga a suposta prática de crimes de sonegação de impostos e de falsidade ideológica na operação de compra da ''Rede Record'' e emissoras de rádio e TV pela Igreja Universal. Nem todos conseguem ser recebidos pela Justiça. Um exemplo foi uma denúncia da promotoria contra Edir Macedo e a diretoria da ''TV Record'' recusada por não ter sido precedida por um inquérito policial, embora tenha sido baseada numa investigação da Receita Federal, e cujas pastas de documento ultrapassam 1.000 folhas. Quem vetou a investigação? O juiz João Carlos da Rocha Matos.
Em dezembro, a Operação Perseu, da Polícia Federal, mirou no Grupo Margem, o segundo maior frigorífico do País, e acabou flagrando uma operação suspeita envolvendo o reino de Edir Macedo. A igreja estava interessada em vender um jatinho Learjet para a empresa por US$ 2,2 milhões, mas era impedida por não conseguir obter uma certidão negativa junto ao INSS. A Universal tinha uma dívida superior a R$ 15 milhões hoje entrou no Refis, o programa federal de refinanciamento de débitos. A PF descobriu que a igreja pagou R$ 300 mil para um escritório de advocacia obter a certidão. ''Ela não poderia ter conseguido isso, pois tinha dívidas na Previdência'', disse o delegado Edgar Paulo Marcon.

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