Brasília - A crise política instalada depois que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ter mandado um ''alto companheiro'' silenciar sobre suposta corrupção no governo de Fernando Henrique Cardoso antecipou a disputa eleitoral de 2006 entre o PSDB e o governo do PT. No Palácio do Planalto, interlocutores de Lula sustentam, porém, que ele não estava se referindo ao ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Carlos Lessa, mas, sim, a Luiz Pinguelli Rosa - que comandou a Eletrobrás -, quando mencionou o ''alto companheiro'' com importante função.
De fato, Pinguelli chegou a afirmar que herdou uma Eletrobrás quebrada ao assumir o cargo, em 2003. Na época em que Pinguelli participou da elaboração do programa de governo de Lula, uma das principais críticas do PT nesse setor era ao processo de privatização da estatal. Pinguelli deixou o governo no ano passado. Lessa, que também foi demitido, disse que os contratos do BNDES foram malfeitos. Afirmou, no entanto, nunca ter falado em corrupção no banco, ''que é 100% público''.
De qualquer forma, a estratégia de ataque a Fernando Henrique foi cuidadosamente planejada na reunião entre os ministros do PT e a cúpula do partido, na terça-feira à noite. Motivo: na avaliação dos petistas, o ex-presidente agiu para desestabilizar o governo na disputa pela presidência da Câmara, comandando uma operação de guerra para eleger Severino Cavalcanti (PP-PE).
Na pajelança que reuniu 18 ministros do PT na sede do partido, há cinco dias, até o ministro da Fazenda, Antonio Palocci Filho - sempre simpático aos tucanos -, concordou que era hora de responder com mais vigor à ofensiva de Fernando Henrique. Lula também avaliou que o comportamento do ex-presidente na eleição da Câmara foi a gota d'água e decidiu reagir ao inaugurar, na quinta-feira, uma unidade da Petrobrás em Jaguaré, no Espírito Santo.
Foi tudo combinado, menos o discurso, feito de improviso. ''O presidente não percebeu que tinha exagerado no tom'', contou um dos políticos que o acompanharam na viagem. ''Até porque ele sempre diz isso, em conversas reservadas.'' Somente quando retornou a Brasília, na quinta-feira à noite, Lula viu o tamanho da repercussão. Foi informado de tudo pelo chefe de gabinete, Gilberto Carvalho, e se assustou. ''Entenderam tudo errado'', disse Lula.
A oposição, capitaneada pelo PSDB, aproveitou a situação para espernear. Na sexta-feira, em Brasília, a temperatura foi tão quente que o governo apostou até mesmo no anúncio do corte de gastos no Orçamento -uma notícia ruim - para tirar o assunto da pauta. ''Lula praticou ato de improbidade administrativa'', afirmou o líder do PSDB na Câmara, Alberto Goldman (SP), que protocolou representação contra o presidente por crime de responsabilidade. ''O PSDB, mais uma vez, está fazendo oposição com disputa política, de olho em 2006'', reagiu o presidente do PT, José Genoino. ''Os tucanos apostam no quanto pior, melhor'', emendou Sílvio Pereira, secretário-geral do partido.

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