Se por um lado o Ama-Comurb, como ela classifica, foi ''um escândalo sem precedentes'' na história da cidade, ou ''a maior investigação sobre desvios de recursos públicos de Londrina'', por outro, a promotora de Defesa do Patrimônio Público, Leila Schmiti Voltarelli, admite: ''A demora na resposta pelos julgamentos é frustrante''.
A promotora atuou principalmente na força-tarefa de 2005, a qual, em um único dia, chegou a protocolar na Justiça 25 ações contra ex-gestores da Prefeitura, o ex-prefeito Antonio Belinati (PP) e até políticos ligados a ele - caso do hoje ex-deputado federal José Janene, do mesmo partido. ''Esperamos que nunca mais aconteça algo semelhante, pois o que se apurou de desvio ali é tão absurdo que nunca mais tem como esquecer. Jamais nós nos tínhamos deparado com um esquema de corrupção tão forte que abrangia tantos setores da administração em que comprovadamente houve tantos desvios de recursos públicos, tantas pessoas e órgãos envolvidos'', comenta.
No entanto, ela alerta que, 10 anos após o início das investigações, é cada vez mais difícil a instrução de alguns processos - as ações, algumas com até dezenas de réus citados, têm situações de réus que ou já morreram, ou mesmo moram em outras cidades, Estados e até países. ''Isso cria um tumulto nos processos, sem contar, é claro, a frustração por não oferecer à sociedade uma resposta completa ou um desfecho que, de alguma forma, esperamos que venha a condenar, a responsabilizar essas pessoas - seja com perda de funções públicas ou, o mais importante, o ressarcimento ao erário do que foi desviado.''
Sobre as ações de ressarcimento, a promotora destaca que, só na semana que passou, foram ingressadas seis ainda referentes à terceira gestão de Belinati - mais de um milhão de reais, estimou, só nelas. O montante global atualizado, contudo, é uma incógnita. ''Temos duas ou três ações há quase quatro anos, no Superior Tribunal de Justiça (STJ), aguardando julgamento de recursos pendentes. É muito tempo. Mesmo assim, este ano estamos tentando atingir uma meta de finalizar os procedimentos instaurados até dezembro de 2005 - isso abrangeria todas as situações referentes ao Belinati -, no caso das mais antigas''.
Um dos efeitos da demora do Judiciário poderá ser colhida já daqui a três anos: hoje com 67 anos, o ex-prefeito, quanto completar 70, poderá ser beneficiado pela redução de até 50% no tempo da prescrição dos crimes na esfera criminal. Atualmente, informou a promotora, o MP está reconhecendo a prescrição em relação ao ex-presidente da Comurb Kakunen Kyosen, um dos vários réus em dezenas daquelas ações. ''É o efeito prático da demora na resposta, infelizmente. Por isso aceleramos as ações com pedidos de ressarcimento'', concluiu a promotora Leila.
A FOLHA conversou na sexta-feira à tarde com Belinati, por telefone - o deputado estadual estava em Curitiba. Informado que a entrevista seria sobre os 10 anos da cassação e o desempenho político nesse período, declinou rápida e sucintamente: ''Não, não, obrigado. Agradeço a deferência, mas não quero falar''. (J.G.)

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