Democratas ameaçam o fast track
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quinta-feira, 09 de outubro de 1997
Paulo Sotero Agência Estado Washington 
Com o apoio de apenas quatro de um total de dezesseis deputados democratas, a Comissão de Dotações da Câmara dos Representantes aprovou ontem por 24 a 14 o fast track, o projeto de lei que autoriza o presidente Bill Clinton a negociar acordos comerciais. O resultado ficou longe de garantir a passagem final da legislação. Dois republicanos, que enfrentam reeleições difíceis no ano que vem em estados industriais, votaram contra. A comissão tem 23 republicanos e 16 democratas. Acordos negociados sob o fast track não são sujeitos a emendas do Congresso, que os aprova ou rejeita em sua totalidade.
A votação foi precedida por uma batalha pela alma do Partido Democrata entre seu líder na Câmara, o deputado Richard Gephardt, que denunciou a falta de compromissos claros com a proteção do meio ambiente e dos trabalhadores americanos nas negociações de acordos comerciais, e assessores do executivo. A votação, inicialmente prevista para as 13 horas, foi adiada por várias horas enquanto altos funcionários da Casa Branca e os adeptos de Gephardt tentavam freneticamente ganhar aliados.
O ralo apoio que a legislação obteve do partido de Clinton, depois de um intenso trabalho de lobby feito pessoalmente pelo presidente, na terça-feira, aumentou a incerteza sobre as chances de aprovação do fast track no plenário da Câmara. A Casa Branca procurou manter uma atitude otimista. Mas fontes da comissão, cujos membros são os mais pró-livre comércio da Câmara, disseram que a legislação enfrenta sérios obstáculos e não será apresentada ao plenário a menos que Clinton consiga converter um número significativo de democratas. William Archer, o republicano do Texas que presidente a Comissão, comunicara à Casa Branca que precisava do apoio de pelo menos seis ou sete democratas para levar o projeto ao plenário este ano.
A administração Clinton reconheceu esta semana que o fast track terá ainda menos apoio se for deixado para 1998, pois se trata de um ano de eleições para o Congresso, e estará morto se não for aprovado nas três ou quatro semanas de atividade legislativa que restam antes do recesso parlamentar de fim de ano.
Acho que o Brasil pode começar a celebrar, disse Jules Katz, vice-Representante de Comércio da Casa Branca, no governo Bush, numa referência à pouco diplomática declaração que o embaixador brasileiro em Washington, Paulo Tarso Flecha de Lima, fez na semana passada, indicando que a derrota da legislação não causaria tristeza no Brasil.
Como as chances de aprovação da legislação só piorarão, se ela não for adotada nas próximas semanas, Clinton parte neste domingo para sua turnê à Venezuela, Brasil e Argentina com sua credibilidade em cheque e numa posição difícil para abordar o assunto e cobrar uma reafirmação do compromisso brasileiro com o projeto da Alca.
O presidente Fernando Henrique Cardoso, que já deixou claro que as negociações da Alca não começarão para valer se o executivo dos EUA não tiver o sinal verde do Congresso, atenuou ontem a importância das diferenças entre os dois países nessa questão e praticamente tirou o assunto da pauta da visita do líder americano. Em entrevistas aos correspondentes estrangeiros em Brasília, ele disse que as divergências comerciais não serão tratadas diretamente durante a visita do líder americano. O importante é a presença de Clinton no Brasil, disse Fernando Henrique. Isso é muito mais importante do que qualquer outra questão.


