Brasília - O ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares assumiu sozinho a responsabilidade pelo caixa 2 do PT feito apenas com dinheiro das empresas do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza. ''Fui eu quem fiz; eu assumo.'' De acordo com ele, o caixa 2, que não era de conhecimento da direção do partido, começou com pouco mais de R$ 10 milhões e está hoje em torno de R$ 39 milhões, exatamente o valor da dívida do PT. Ele garantiu que não há dinheiro público no caixa 2.
Durante seu longo depoimento ontem à CPI dos Correios, Delúbio usou o habeas corpus obtido no Superior Tribunal de Justiça para deixar de responder perguntas relativas aos saques no Banco Rural e o repasse de verbas para o PTB. O ex-tesoureiro também procurou afastar das denúncias de irregularidades o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. Ele não explicou, porém, como iria pagar os empréstimos com Valério, calculados em R$ 90 milhões por ele mesmo, uma vez que, segundo Delúbio, não havia contabilização do montante. ''Estou diante de um grande problema e preciso resolvê-lo o mais rápido possível'', afirmou, arrancando risos dos parlamentares.
De acordo com Delúbio, os empréstimos legais são de conhecimento da Executiva do PT e compõem o cheque especial no Banco do Brasil, cujos débitos estão, hoje, em torno de R$ 3,5 milhões, e o leasing, também feito no BB, para compra de computadores para informatizar os diretórios do partido em todo o País.
Delúbio afirmou que foi procurado, em 2003, por vários companheiros do PT e da base aliado que fizeram dívidas de caixa 2 nas campanhas e cujos credores queriam receber. Ele disse que essas dívidas foram contraídas principalmente porque alguns candidatos que, pela lógica política não tinham chance de chegar ao segundo turno, acabaram sendo bem-sucedidos na disputa e chegaram ao segundo turno. Nestes casos, segundo ele, a campanha exigiu mais gastos e provocou as dívidas. Ele disse que não discutiu esses empréstimos na Executiva, porque as demandas eram de recursos do caixa 2. ''Posso ter errado e saberei, com honra e dignidade, assumir o ato que fiz'', afirmou.
O ex-tesoureiro se negou a fornecer à CPI dos Correios os nomes das pessoas do PT e de partidos aliados que se beneficiaram do caixa 2. Delúbio usou como argumento o fato de que poderia ser injusto tanto com os candidatos, com os diretórios partidários e os fornecedores. ''Prefiro me reservar o direito de não revelar'', disse, acrescentando que as investigações da Polícia Federal, do Ministério Público e da CPI dos Correios vão esclarecer quem recebeu o dinheiro.
Sobre os empréstimos feitos junto ao BMG, Delúbio disse que pagou R$ 800 mil em juros até 2004 - ele não espeficou o mês. O ex-tesoureiro confirmou que o publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza, que era avalista do empréstimo, pagou uma parcela de R$ 300 mil. O empréstimo era de R$ 2,4 milhões e está em R$ 2,7 milhões, segundo Delúbio. ''Se não pagarmos até setembro, o banco vai executar o PT''. Do Banco Rural, segundo Delúbio, nada foi pago do empréstimo de R$ 3 milhões, hoje em R$ 7 milhões. Valério também foi avalista da transação.
Delúbio negou ainda que o PT pague ''mensalão'' a deputados para aprovar projetos do governo. ''O PT não paga mesada a parlamentares de nenhum partido, o PT não compra votos para votar nos projetos de interesse do governo.'' Sobre a relação dos petistas com o PTB, Delúbio respondeu que as informações serão tratadas ''no momento certo''.

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