Somente um dos preparadores de cadáver da Administração de Cemitérios e Serviços Funerários de Londrina (Acesf) convocados a depor compareceu, ontem pela manhã, perante o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). Sem advogado, Antonio Vaz garantiu na oitiva que jamais recebeu propina para forçar famílias a adquirirem o serviço de tanatopraxia (conservação de corpos). Claudemir Mendes não foi localizado pelos policiais do Gaeco para receber a intimação.
Vaz e Mendes são dois dos funcionários que foram afastados da Acesf, por ordens da prefeitura, em razão das suspeitas. Outro é o recepcionista Mauro Pinto Ferreira, preso na última quarta-feira, acusado de tentar constranger testemunhas. O afastamento mais recente foi o do técnico de gestão pública Marino Wanderley Lima, investigado pela Controladoria do Município por intermediar a venda irregular de jazigos. Esta última denúncia ainda não é objeto de inquérito policial.
Em entrevista no Gaeco, Vaz afirmou que os preparadores de cadáver seguiam determinação do ex-superintendente da Acesf, Osvaldo Moreira Neto - exonerado a pedido próprio no mês passado - para ''orientar as famílias (de falecidos) com relação à condição dos cadáveres''. Técnico de enfermagem e funcionário da Acesf há quatro anos e meio, ele assegurou que tinha competência para recomendar a tanatopraxia somente nos casos em que era realmente necessária.
''Fiquei até surpreso (com o afastamento), porque o único interesse nosso era que a família pudesse velar seu ente com toda a tranquilidade. Nunca sofri uma advertência verbal ou escrita, fazia até papel de motorista na Acesf'', declarou. Ele garantiu nunca ter recebido dinheiro das duas empresas de tanatopraxia da cidade e disse acreditar que ''ninguém recebeu''.
O delegado do Gaeco, Alan Flore, disse que a versão apresentada pelo funcionário ''destoa'' daquela repassada pelos familiares de pessoas mortas que já prestaram depoimento. ''A princípio, analisando essas versões antagônicas, a gente chega à conclusão de que seria improvável que todos os familiares tivessem combinado o que iriam dizer'', apontou. Cerca de 15 supostas vítimas da fraude já depuseram no inquérito, mas o número de pessoas que procuraram o Gaeco já ultrapassaria cinquenta. Ainda não há indiciados nos autos.
Conforme o delegado, os familiares ''apresentaram uma versão bastante sólida no sentido de que, caso não se sujeitassem ao serviço, o enterro teria que ocorrer num tempo bem mais curto''. Outro elemento importante que está sendo apurado, ressaltou Flore, é o valor do serviço praticado pelas empresas de Londrina, bem mais elevado do que em outras localidades - em média, R$ 1,3 mil, contra R$ 300 em cidades da região. ''Isso também será objeto de investigação, haja vista que poderia indicar pagamento indevido de comissões a funcionários da Acesf'', apontou.

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