Delegado era o chefão, afirma traficante Mauro FrassonLIGAÇÕES PERIGOSASShirley chega à AL: ‘‘Sem eles (delegados), nenhuma malandragem sobrevivia no Estado’’ Israel Reinstein De Curitiba A traficante Shirley Aparecida Pontes confirmou ontem, em depoimento à CPI do Narcotráfico em Curitiba, que comprou e vendeu drogas sob o comando do delegado-geral afastado João Ricardo Képes Noronha. Acusada de envolvimento com o traficante carioca Luiz Fernando Costa, conhecido como Fernandinho Beira-Mar – cuja ramificação de atividade foi descoberta também em Curitiba – a traficante contou que também estiveram envolvidos os delegados do Centro de Operações Policiais Especiais (Cope), Mário Ramos, e Moacir Alves Albuquerque, de Campo Mourão, além do investigador do Cope Júlio Reis. O depoimento de Shirley começou às 15 horas. Assustada, ela temia pela segurança da filha, de 10 anos. ‘‘Ficar calada é mais seguro’’, disse. Porém, a traficante foi convencida pelos parlamentares a falar e também a tirar o colete à prova de balas. Shirley contou que, em 1991, fazia parte de uma quadrilha que atuava na região de Campo Mourão e Engenheiro Beltrão (Região Noroeste). ‘‘Abastecendo-se’’ de material vindo de Corumbá (MT), os traficantes usavam pistas clandestinas ou caminhões para trazer cocaína. Os chefes da quadrilha eram, segundo Shirley, os delegados Noronha, Ramos e Albuquerque. ‘‘Sem eles, nenhuma malandragem sobrevivia no Estado’’, afirmou a traficante aos parlamentares da CPI. No entanto, existia uma hierarquia entre os delegados, com Noronha e Ramos como mentores, relatou a traficante. Albuquerque era o homem operacional do tráfico, coordenando os integrantes do grupo, incluindo Shirley. A traficante disse que foi agregada ao grupo quando teve sua prisão decretada em Campo Mourão, em 1991. Ela relatou à CPI do Narcotráfico que, na época, recebeu um aviso de Noronha de que seria liberada de maneira inusitada. Com apenas três dias na cadeia, um grupo encapuzado invadiu a delegacia e a libertou. Fora da prisão, Shirley passou a agir com a quadrilha de Campo Mourão. Ela relatou que o golpe mais lucrativo para os policiais traficantes foi o roubo de uma remessa de 150 quilos de cocaína e de um avião. Shirley afirmou que, ‘‘sob orientação de Noronha’’, ela se passou por uma contadora, junto com um policial que se apresentou como deputado. Durante algumas semanas, os dois receberam instruções do delegado-geral afastado para negociar a compra da droga, que seria entregue em Campo Mourão. ‘‘Ele até gravou as nossas conversas, onde passava as dicas’’, disse, acrescentando que essas fitas ficaram com Noronha. No dia da entrega da droga, os policiais armaram um flagrante e ficaram ‘‘com toda a mercadoria, além do avião’’, afirmou. Shirley pensava em receber dinheiro da venda dessa droga, mas alega ter sido ‘‘passada para trás’’.