Curitiba - A maior operação contra a corrupção já vista no País e que avançou a passos largos em pouco mais de um ano começa a sofrer uma série de intervenções que podem atrapalhar o andamento das investigações, principalmente em Brasília. Segundo o delegado da Polícia Federal (PF), Eduardo Mauat da Silva, ninguém entendeu o motivo pelo qual o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, solicitou ao Supremo Tribunal Federal (STF) a suspensão da tomada de depoimentos em sete inquéritos que investigam políticos e operadores do esquema. Entre os investigados nestes inquéritos estão os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).
Tal decisão do procurador-geral causou uma indisposição entre membros da PF e do MPF que ainda não tinha sido vista enquanto as investigações estavam em andamento somente no Paraná. "Houve por parte do procurador Janot uma iniciativa de tolher as investigações da PF e esperamos que ele explique à sociedade o porquê disso. Estava indo tudo bem com a instrução, pessoas sendo intimadas, como se faz dentro de um inquérito normal. Mas num determinado momento se decide parar para fazer um realinhamento da investigação. Talvez, haja um argumento que ainda não conhecemos, mas não conseguimos entender a motivação. Inclusive algumas pessoas foram contatadas diretamente pelo MPF de Brasília para que não comparecessem à PF, nós nunca vimos este tipo de situação", disse o delegado.
De acordo com Mauat, até mesmo servidores do STF se mostraram surpresos com o pedido feito por Janot. "Não havia nada diferente sendo feito daquilo que a gente já tinha realizado em Curitiba em relação aos investigados da Lava Jato. Ele (Janot) que diga o porquê, senão a situação vai ficar um pouco complicada. Ele ocupa um cargo político, foi indicado pelo governo e não poderia interferir numa investigação da PF", completou .
Mauat é diretor regional da Associação dos Delegados da Polícia Federal (ADPF) e participou ontem de uma coletiva, em Curitiba, sobre o pacto anticorrupção que a PF está lançando em todo o País. Questionado se o atual governo estaria tentando minar o avanço das investigações já que existem representantes do Partido dos Trabalhadores (PT) entre os envolvidos, o delegado deixou uma dúvida no ar: "Não sei. Vamos aguardar os próximos meses".

PACTO

A categoria elaborou uma série de medidas para valorizar e fortalecer a PF. Entre elas está tornar a Polícia Federal mais autônoma, com melhores mecanismos para investigar a corrupção e reduzir a impunidade, sem qualquer tipo de ingerência política. Para isso, os delegados cobram a aprovação da PEC 412/09, que garante a autonomia administrativa e financeira do órgão. As entidades ainda propõem a criação de delegacias especializadas com essa finalidade em todos os estados e no Distrito Federal; a priorização de investigações criminais de maior relevância; e a criação de um Conselho Nacional de Polícia Judiciária.
"Por isso defendemos a autonomia do órgão, porque as prioridades do governo não são as mesmas prioridades da Polícia Federal. Se a PF administrasse o próprio orçamento, com certeza os policiais não estariam tirando do próprio bolso para trabalhar nas operações. O Executivo não vem pagando as diárias dos policiais que atuam na Lava Jato e de outras operações importantes para o País", apontou Mikalovski.
Outros pontos defendidos pela categoria são a unificação dos registros criminais da Polícia Judiciária; normatização das cooperações entre as instituições; regulamentação da cooperação jurídica e policial internacional; e criação de cinco mil vagas para servidores administrativos.
"O governo fala que não ocorriam tantas operações e que, a partir do governo Lula, isso mudou. O governo tem atuado no fornecimento de meios, estruturais e físicos, para que a gente desempenhe o nosso papel, agora ele não é responsável direto pelo que a PF faz ou deixa de fazer. Temos cargos concursados, leis e temos a Constituição que diz o que devemos fazer, isso não é mérito de governo nenhum. Se vier um governo de outro partido e nós continuássemos trabalhar mais, não mudará nada", completou Mauat.

INSTITUIÇÕES

Apesar dos últimos acontecimentos, os delegados afirmam que não existe uma briga entre PF e MPF, e que nem deve vir a ocorrer, pois o relacionamento entre os órgãos em Curitiba é muito bom. "Queremos impedir de toda forma que esse mal-estar prejudique o resultado da operação. Então, a PF não vai entrar neste ‘jogo de rivalidade’ entre instituições. A forma ética como foi conduzido o trabalho aqui no Paraná pela PF, MPF e Judiciário, Receita e demais órgãos é exemplo para o Brasil inteiro. E, depois que saiu daqui, não podemos deixar que o resultado obtido graças a este trabalho conjunto seja prejudicado em relação a isso. Temos que tirar o foco disso e voltar ao foco principal da investigação que é chegar nos culpados e nas punições", finalizou Mikalovski.

Leia também:
- Diárias de policiais estão atrasadas há dois meses
- PGR: suspensão dos depoimentos ‘garante êxito nas investigações’

mockup