Delcídio revela oferta de cala-boca
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 15 de março de 2016
Márcio Falcão e Aguirre Talento<br>Folhapress 
Brasília - O senador Delcídio do Amaral (PT-MS) entregou gravações à Procuradoria Geral da República (PGR) de conversas de um de seus assessores com o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, na qual ele tenta evitar a delação de Delcídio, oferecendo ajuda financeira e lobby junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) para sua soltura. A ofensiva de Mercadante foi relatada por Delcídio no quinto termo de depoimento de sua colaboração premiada, assinado com o Ministério Público Federal e homologada ontem pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Teori Zavascki, relator do processo da Operação Lava Jato, e ao qual a reportagem teve acesso. A informação foi antecipada pela revista "Veja".
Além de Aloizio Mercadante e da presidente Dilma Rousseff e do vice Michel Temer, a delação de Delcídio envolveu políticos de diversos partidos como os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), o senador Aécio Neves (PSDB) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) este último teve o nome citado 185 vezes.
"Aloizio Mercadante, em tais oportunidades, disse a Eduardo Marzagão [assessor de Delcídio] para o depoente ter calma e avaliar muito bem a conduta a tomar", diz o depoimento do senador. "A mensagem de Aloizio Mercadante, a bem da verdade, era no sentido do depoente não procurar o Ministério Público Federal para, assim, ser viabilizado o aprofundamento das investigações da Lava Jato", completou.
Segundo o depoimento, Marzagão comentou que a família do senador estava em dificuldades financeiras e recebeu oferta de ajuda de Mercadante. "Mercadante disse que a questão financeira e, especificamente, o pagamento de advogados, poderia ser solucionado, provavelmente por meio de empresa ligada ao PT", afirmou Delcídio. Para o senador, o ministro "agiu como emissário da Presidente da República e, portanto, do governo".
Marzagão gravou as conversas com Mercadante e entregou-as a Delcídio, para que fossem apresentadas como prova em sua delação. Foram três encontros, todos em dezembro do ano passado. De acordo com a delação, também houve promessa de lobby no Judiciário e no Senado para que Delcídio fosse solto. "Mercadante disse que também intercederia junto a Ricardo Lewandowski [presidente do STF] e Renan Calheiros [presidente do Senado] para tomarem partido favoravelmente ao depoente, no sentido de sua soltura."
SOLIDARIEDADE
O senador relatou ainda que decidiu fazer a delação porque "não sentiu qualquer firmeza nas promessas de solidariedade e de ajuda política que, eventualmente, receberia". Delcídio se comparou a Marcos Valério, preso por conta do mensalão, dizendo que a mesma situação ocorreu com ele e com outras pessoas que enfrentaram problemas semelhantes.
Segundo o senador, outras pessoas próximas ao PT e ao governo também buscaram outros envolvidos na Lava Jato para convencê-los a não fechar delação premiada.
"Pode recordar que Sigmaringa Seixas [advogado], Paulo Okamotto [presidente do Instituto Lula] e José Eduardo Cardozo [ex-ministro da Justiça e atual advogado-geral da União] são agentes ligados ao PT que buscaram contato com outros envolvidos, a exemplo de Renato Duque, para o fim de serem frustradas, por exemplo, as investigações realizadas a partir do caso Lava Jato."
Delcídio afirmou ainda que as discussões sobre os desdobramentos da Lava Jato eram restritas a um reduzido número de pessoas da cúpula do governo, dentre elas, a presidente Dilma, Cardozo, Sigmaringa Seixas, Mercadante e, mais recentemente, o ministro da Casa Civil, Jaques Wagner.
Delcídio, que pediu para se desfiliar do PT ontem, disse que sua delação deixa "claro" que ele tinha sido escalado pela presidente Dilma Rousseff e pelo ex-presidente Lula "para barrar a Lava Jato".
R$ 1, 5 MILHÃO
O acordo de delação premiada revela que o petista terá que devolver R$ 1, 5 milhão aos cofres públicos por seu envolvimento no esquema de corrupção da Petrobras. "O acordo de colaboração celebrado também teve por fim a recuperação do proveito das infrações penais praticadas pelo colaborador, no valor de R$ 1, 5 milhão", diz o procurador-geral da República Rodrigo Janot no pedido de homologação.
OUTRO LADO
Por meio de nota, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, diz que "jamais manteve qualquer tipo de conversa nos termos citados no depoimento". Ele falou também que não tem "poder decisório sobre os feitos citados, tarefa incumbida ao relator e aos integrantes da Segunda Turma" e, como chefe do Poder Judiciário, "zela pela independência e pela imparcialidade do exercício da magistratura".
FHC E ITAMAR
No acordo de delação premiada, Delcídio do Amaral (MS) revela que o esquema de corrupção na Petrobras já ocorria antes da chegada do PT ao governo, nas gestões dos presidentes Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Segundo Delcídio, já na gestão do ex-presidente da estatal Joel Rennó, que comandou a Petrobras nos governos de Itamar e Fernando Henrique, entre os anos de 1992 e 1999, ocorriam "casos de ilicitudes", em alguns casos para "enriquecimento pessoal" como também para "financiamento de campanhas políticas".
À Justiça, Delcídio afirmou que tomou conhecimento da existência de esquemas de corrupção na Petrobras quando foi diretor da estatal no governo FHC, entre os anos de 1999 e 2001. O primeiro caso, segundo ele, ocorreu na compra da Plataforma P-36, orçada, inicialmente, em US$ 400 milhões, mas que custou aos cofres da Petrobras mais de US$ 500 milhões.


