Terminados os depoimentos das testemunhas de acusação e defesa arrolados para o processo relativo à primeira fase da Operação Publicano, a expectativa agora é pelos interrogatórios dos réus, mais especificamente do principal delator do caso, o auditor Luiz Antonio de Souza, que deverá ser ouvido na próxima segunda-feira, a partir das 13h30, sem algemas, afirmou ontem seu advogado, Eduardo Duarte Ferreira. "Formalizei esse pedido de que não seja interrogado algemado; o juiz concordou", declarou.
Souza está preso desde janeiro do ano passado, quando foi flagrado em um motel com uma adolescente, e responde também por crimes de exploração sexual, processos nos quais também é réu colaborador. Na Publicano, delatou dezenas de colegas auditores que fariam parte de organização criminosa incrustada na Receita Estadual de Londrina, com ramificações na cúpula, em Curitiba, segundo a acusação do Ministério Público (MP). Também admitiu em vários depoimentos que exigia, sim, propina de empresários para facilitar ou permitir a sonegação fiscal.
"Esperamos que ele reafirme o que já declarou ao Ministério Público", disse a promotora do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), Leila Schimiti. "Ele vai reafirmar tudo. Acredito que vai revelar ainda mais coisas, mais detalhes, mais informações. Está pronto para depor. Ele tem informações guardadas em sua memória que, aliás, é brilhante, e vai dizer perante todos o que efetivamente aconteceu na Receita Estadual do Paraná", assegurou Ferreira.
Ainda segundo o advogado, ontem o juiz da 3ª Vara Criminal, Juliano Nanuncio, também teria solicitado à direção da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL) que abrisse exceção quanto ao retorno de Souza à unidade, na segunda-feira, após o depoimento. "Há uma norma de segurança lá na PEL que impede a entrada de presos após às 17h30. O que o juiz fez foi pedir uma flexibilização", comentou. Quatro horas seria tempo extremamente exíguo para que o delator reafirmasse todas as declarações. "Acho que o depoimento dele se estenderá por pelo menos dois dias", arriscou Ferreira, que também defende outra delatora, a auditora Rosângela Semprebom, irmã de Souza. O interrogatório dela está marcado para terça-feira.
Ferreira comentou ainda que não se opõe à presença na sala de audiências dos demais réus. Pela lei da colaboração premiada, delatores têm direito a não fazer contato visual com as pessoas que acusou. Disse que ainda consultaria o cliente, mas, em princípio, não via problemas. "Da minha parte não há prejuízo algum que os demais corréus estejam lá, uma vez que, segundo as palavras do próprio Luiz Antonio, eles foram companheiros de longa data."
Em que pese a expectativa acerca do depoimento dos delatores, advogados de outros réus minimizaram a importância das declarações de Souza. "Ele é um delator e é assim que seu depoimento deve ser encarado. Não vejo com um depoimento decisivo. O que ele disser também será desconstruído", disse Edgar Ehara, que defende três auditores.
O advogado Douglas Bonaldi Maranhão, defensor de Márcio de Albuquerque Lima, apontado pelo MP como suposto líder da organização criminosa, da mulher dele, Ana Paula Pelizari Marques Lima, e do auditor Dalton Lázaro Soares, evitou comentários diretos. "Vamos aguardar. Não sabemos como vai ser a declaração. Mas, será o momento em que as defesas poderão questioná-lo", comentou.

Balanço
Tanto Ehara quanto Maranhão se demonstram satisfeitos com os 12 dias de audiências e a oitiva de 24 testemunhas de acusação e 52 de defesa. "Estou extremamente satisfeito com o que foi produzido até agora. Acredito que a acusação não conseguiu demonstrar o entendimento contido na denúncia", afirmou Ehara. "Os depoimentos foram extremamente elucidativos; vários pontos que foram apresentados na denúncia que a defesa entendia que não tinham fundamentos foram rechaçados por esses depoimentos, inclusive conjecturas que fundamentaram prisões ao longo das investigações", comentou Maranhão.
As audiências começaram em 15 de fevereiro. Após os interrogatório de Souza e de sua irmã, a instrução será suspensa até 4 de abril, quando os demais réus que moram em Londrina (52 de um total de 73 acusados no processo) serão interrogados.

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