Apesar do sucesso do governo em controlar a inflação nos três anos do plano Real e dos capitais estrangeiros que entram no País para investimentos no setor produtivo, o Brasil está pisando em terreno perigoso: as contas externas se deterioraram desde o lançamento do real e o desequilíbrio só pode ser sustentado por um período não superior a dois anos.
‘‘A possibilidade de crescimento deste déficit tem limites’’, resume o coordenador de Pesquisas da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), Ricardo Markwald. Detê-lo depende do comportamento da balança comercial, já que o outro grande componente das transações correntes, que é a balança de serviços, é negativo por natureza: nele entram os juros pagos pelos empréstimos que o governo e as empresas brasileiras tomam no exterior e os lucros remetidos pelas empresas estrangeiras instaladas no País, muito maiores do que os que as filiais de empresas brasileiras instaladas no exterior mandam para suas matrizes no Brasil.
O déficit em transações correntes é financiado com os recursos obtidos pelo País no exterior, endividando-se. A questão, de acordo com o subchefe do Departamento Econômico da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco, é que não se pode confiar em que a disposição dos estrangeiros em relação ao Brasil, que se provou muito favorável nos três anos de real, crescerá tanto quanto o déficit.
A pedra de toque para reverter o desequilíbrio nas transações correntes, deixam claro Castelo Branco e Markwald, é a balança comercial, que rompeu uma cadeia de vários anos de resultados positivos a partir do plano Real. O País passou a importar intensamente, em um ritmo que as exportações não conseguiram acompanhar. Em 1993, o último ano completo antes do real, registrou um superavit de US$ 13,3 bilhões - o déficit comercial de 97 pode chegar a uma cifra muito parecida com esta.
Mesmo que as importações já não cresçam tanto quanto nos últimos três anos, o esforço exportador para gerar saldos positivos na balança comercial terá de ser muito grande. E nesta tarefa não será possível contar decisivamente com a taxa de câmbio, que, se desvalorizado, baratearia os produtos exportados, tornando as empresas brasileiras mais competitivas. Markwald lamenta que no início do real a moeda nacional tenha sido excessivamente valorizada em relação ao dólar, criando boa parte do problema que se tem agora. Ele lembra que o governo tem acelerado a desvalorização do real, mas não pode fazer muito mais do isso, por conta do risco de provocar inflação - o dólar mais caro encareceria as importações e, consequentemente os preços no mercado interno.
Markwald aponta para a necessidade de se fazer um levantamento sério do aumento de competitividade das empresas brasileiras no exterior e no mercado interno, após a onda de importação de bens de capital que, supõe-se, teria modernizado as empresas brasileiras. Além disso, também quer saber qual foi o impacto de medidas como a desoneração do Imposto sobre Mercadorias e Serviços (ICMS) das exportações, obtenção de certificados ISO 9000 pelas empresas e redução de taxas de juros sobre esta mesma competitividade. Ele teme que se esteja confiando excessivamente na virada exportadora que as empresas - espera-se - darão nos próximos dois ou três anos, em decorrência de todos esses fatores. Em sua avaliação, é hora de fazer essa aferição, pois a manutenção de altos deficits comerciais e, portanto, também em transações correntes, pode ser desastrosa para a estabilidade.
Flávio Castelo Branco considera muito restrita a margem de manobra na política cambial e se preocupa com a dificuldades previsíveis para se continuar financiando o crescente déficit em transações correntes. O Brasil tem captado recursos no exterior com grande facilidade, mas o fato, diz ele, é que justamente por isso o peso do País na carteira dos demais países também vem aumentando muito. ‘‘A fatia que eles se dispõem a arriscar no Brasil vai encolher e o País terá de pagar juros cada vez mais altos para conseguir dinheiro’’, explica, acrescentando que esses juros aprofundarão o déficit da balança de serviços e, em consequência, também o da balança de transações correntes - o que, por sua vez, gerará a necessidade de buscar mais financiamentos e pagar mais juros.

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