O governo brasileiro anunciou ontem que considera inaceitáveis as declarações do presidente argentino, Carlos Menem, contrárias à possível escolha do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). O ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, disse que as declarações de Menem são ‘‘incompatíveis’’ com a aliança estratégica entre Brasil e Argentina.
O presidente Fernando Henrique Cardoso recebeu com surpresa as declarações de Menem - feitas em entrevista exclusiva à ‘‘Agência Estado’’, publicada domingo. Ontem à tarde, o porta-voz do Palácio do Planalto, Sérgio Amaral, explicou que, ‘‘se fosse o contrário (a Argentina pleiteando essa vaga), certamente haveria a compreensão e o apoio do Brasil’’.
Menem disse não concordar que o Brasil se transforme em membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, porque essa posição ameaçaria o ‘‘equilíbrio’’ da região. ‘‘Essas afirmações do presidente Menem foram recebidas por nós com surpresa e desagrado’’, reagiu Lampreia, depois de discutir o assunto ontem com o presidente Fernando Henrique. ‘‘São um verdadeiro veto, que não podemos aceitar, e não se coadunam com a idéia central de aliança estratégica entre Brasil e Argentina’’.
‘‘É difícil entender o que é esse ‘equilíbrio’ de que fala o presidente Menem, se o Brasil e a Argentina têm uma aliança estratégica’’, argumenta o ministro. Ele informou que a discussão sobre o Conselho de Segurança já seria levada à reunião do Grupo do Rio, quinta e sexta-feira, em Assunção, no Paraguai. Mas, com a entrevista de Menem, ganhou ‘‘outra dimensão’’ nas conversas que terão, durante o encontro, os presidentes e os ministros das Relações Exteriores dos dois países. ‘‘Queremos evitar que essa questão do Conselho de Segurança crie uma divisão e dissensão profunda entre Brasil e Argentina’’, afirmou Lampreia.
O ministro deixou claro que, com as declarações, Menem traiu o compromisso dos governos dos dois países, de evitar discussões públicas sobre assuntos delicados, como o do Conselho de Segurança. A Argentina, no grupo de trabalho criado para discutir o assunto na ONU, já vinha defendendo que uma nova vaga no Conselho de Segurança fosse ocupada rotativamente pelos países da região.
‘‘Até hoje o Brasil tratou o tema de maneira cuidadosa, porque ainda não havia decisão em Nova York, e porque sabíamos que podia ter impacto indesejável em nossa relação com a Argentina’’, comentou o ministro das Relações Exteriores. Esse cuidado levou o governo brasileiro a evitar críticas abertas à proposta da vaga rotativa, até que o assunto fosse decidido pela ONU.
A opção da diplomacia brasileira foi estimular a manifestação de aliados à transformação do Brasil em membro permanente do Conselho de Segurança. A Alemanha, a Índia e o Paraguai já anunciaram apoio ao Brasil, lembra o chanceler, que, apesar da irritação com a precipitação argentina, mantém o tom cuidadoso: ‘‘O Brasil não postula a vaga, e sequer se declarou candidato’’. Ele explica: ‘‘O presidente tem dito que, se escolhido, o País está pronto a assumir a cadeira no Conselho’’.
‘‘Queremos que nossa amizade profunda se traduza em gestos’’, disse o ministro. Na prática, o governo brasileiro aceita que a Argentina faça campanha pela vaga rotativa, mas quer arrancar do governo Menem o compromisso de que não fará campanha aberta contra a indicação do Brasil, o que seria desastroso para as relações entre os dois países. ‘‘Temo que uma colocação tão contundente quanto à do presidente Menem seja mal compreendida pela opinião pública e possa ter um impacto indesejável’’, comentou Lampreia.

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