Curitiba - Uma enxurrada de críticas recaiu ontem sobre o governador do Paraná, Beto Richa (PSDB), após as declarações polêmicas feitas por ele, relativas a um projeto de lei encaminhado à Assembleia Legislativa (AL) do Paraná e que retira da Emenda 29 a obrigatoriedade de diploma de ensino superior para soldado da Polícia Militar (PM) e curso de engenharia para oficial do Corpo de Bombeiros.
Ao defender que não é necessário possuir diploma de nível superior para ingressar na PM, Beto destacou que pessoas mais jovens poderiam ter uma oportunidade na corporação e deu a entender que a exigência do diploma poderia tornar as pessoas mais insubordinadas. ''Isso demonstrou não ser uma boa iniciativa, porque você desestimula os jovens que querem entrar na polícia, principalmente os egressos do serviço militar, que saem com 18, 19 anos, e não têm o curso superior ainda. E essas pessoas estão mais preparadas, teoricamente, do que as outras, porque já passaram por uma boa formação nas Forças Armadas, no Exército, e podem dar uma boa contribuição ingressando na nossa polícia militar, por exemplo. A outra questão é de insubordinação também. Uma pessoa com curso superior muitas vezes não aceita cumprir ordens de um oficial ou um superior com uma patente maior'', disse o governador, em entrevista à rádio CBN Curitiba.
Em relação às críticas sobre a retirada da exigência do diploma para a PM, Beto respondeu que não tem a pretensão de alcançar unanimidade com suas iniciativas. O governador emendou que, se não é necessário diploma universitário para ser eleito governador ou presidente da República, também não seria necessário para a PM.
A repercussão foi grande, principalmente nas redes sociais. A Associação de Defesa dos Direitos dos Policiais Militares Ativos, Inativos e Pensionistas (Amai) publicou uma nota de repúdio, dizendo que tais opiniões emitidas pelo governador são inadmissíveis. ''Sua declaração causou indignação em toda a sociedade paranaense, inclusive nos policiais e bombeiros militares que diariamente arriscam suas vidas no combate à criminalidade. Muitos deles, aliás, já buscaram o curso superior para ampliar seus conhecimentos e aperfeiçoar-se, pois sabem que investir em educação é indispensável para qualquer profissional. É vergonhoso perceber que o nosso governador incentiva a ignorância, ao invés de apoiar o aprimoramento da polícia paranaense'', diz trecho do documento. Para a Amai, PMs e bombeiros com nível superior ingressarão mais velhos na corporação e terão mais maturidade e conhecimento para desenvolver o trabalho. ''Não se pode retroceder no tempo. Ficou no passado a ideia de que policial precisava apenas obedecer seus superiores e apertar o gatilho'', sustenta a Amai.
Sem perder a oportunidade, o senador Roberto Requião (PMDB), crítico ferrenho da gestão Beto Richa, saiu ao ataque. Sobrou para os deputados estaduais, uma vez que até os parlamentares peemedebistas, do partido de Requião, deixaram de fazer oposição no Legislativo estadual. ''Richa, os deputados te obedecem porque não possuem grau universitário? Ou porque concordam com suas ideias geniais?'', alfinetou Requião, pelo Twitter.
Justificativa
O governador justificou que as declarações divulgadas estavam descontextualizadas e que por isso deram margem a interpretações equivocadas. ''O que eu quis dizer é que é desejável que policiais tenham curso superior, mas a ausência da formação não pode ser um impeditivo para ingresso na carreira militar. Seria discriminação. Hoje, 50% dos 12 mil praças e 100% dos oficiais têm curso superior. O curso de Bacharel em Segurança da Academia Policial Militar do Guatupê é reconhecido como curso de nível superior'', disse. Pelo Twitter, Beto também escreveu: ''O que eu disse é que retiramos a exigência do diploma para dar oportunidade aos mais jovens que ainda não concluíram o curso superior''.
O projeto começa a tramitar pelas comissões da AL para, depois, seguir para votação em plenário. Representantes dos policiais tentarão convencer os deputados estaduais a derrubarem o projeto. ''Será um alto constrangimento posicionar-se favorável ao projeto para aqueles mesmos deputados que aprovaram a Emenda 29'', cobra o presidente da Amai, coronel Elizeu Furquim. Ele ressaltou que a exigência do diploma foi quesito discutido em dezenas de audiências públicas realizadas pelo Paraná antes da aprovação da Emenda 29, em outubro de 2010.
Uma audiência pública foi marcada para a próxima quarta-feira, dia 2, no plenarinho da AL, para discutir com os envolvidos os cinco projetos de lei de autoria do Executivo e que atingem os profissionais que trabalham na segurança pública do Estado.

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