''Uma condenação como essa não alivia a dor da gente, mas pelo menos evita que o caso fique impune e que caia no esquecimento. Tentaram ocultar a verdade, mas isso é algo que não vai morrer nunca mais.''
O desabafo é do militar aposentado Sebastião Alves da Silveira, 65 anos, pai do cadete Márcio Lapoente da Silveira, morto em outubro de 1990 durante treinamento na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), em Resende (RJ).
Silveira é aposentado da Marinha e vive no Rio com a esposa e um filho de 40 anos com autismo. Atualmente, o pai do cadete é dirigente no grupo carioca Tortura Nunca Mais, uma das entidades que prestaram apoio à família do jovem, à época, para que o caso fosse denunciado à Justiça.
O aposentado comemora o fato de Pessôa ser o ''primeiro militar condenado por tortura a pagar do próprio bolso''. Casos de tortura registrados no regime militar (1964/1984) julgados recentemente, por exemplo, deixaram o ônus somente à União.
''Não precisamos desse dinheiro: queremos é que ele sinta que foi uma sucessão de erros, ao menos em parte, corrigida'', disse Silveira. ''O comandante foi o mentor, pois havia ali outros 13 instrutores e 12 médicos que deixaram meu filho morrer. Temos todas as provas documentadas nos autos, respaldadas por 18 testemunhas: entre as quais, oito que confirmaram os maus tratos naquele dia'', relatou.
Pelo depoimento do pai, com base em laudos e declarações da época, o cadete teria passado mal por volta das 5h50. O grupo de 240 alunos, diz ele, saíra para a corrida na mata às 4h30. Depois de aproximadamente 5 quilômetros percorridos, Lapoente parou.
''Meu filho seguia à frente dos demais, pois era dos mais altos. Passou mal, assim como outros 33 cadetes, mas foi abandonado no meio do mato. Só que, depois, o (então) tenente não permitiu que ele descansasse e usou de truculência para que ele continuasse o exercício: foram tapas, xingamentos, e, no fim, colegas o levaram desmaiado para ser atendido, às 6h30. Nesse espaço de tempo, foi uma bárbarie o que fizeram com ele.''
O pai conta que a austeridade daquele tipo de ambiente não era exatamente uma novidade para o jovem, já que ele havia estudado por sete anos em colégio militar. ''Esperávamos que na academia seria duro, ele mesmo sabia. Porém, esse oficial ultrapassou todos os limites - confundiu rigidez com desumanidade, covardia. Sou militar, e em nenhum manual consta o tipo de tratamento desumano que ele usou.''
Além do grupo Tortura Nunca Mais, a causa da família carioca também recebeu apoio da Justiça Global, Organização das Nações Unidas (ONU), Anistia Internacional e Organização dos Estados Americanos (OEA). (J.G.)

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