Decisão de Jobim coloca apuração do MP em xeque
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terça-feira, 02 de julho de 2002
Wilson Silveira eSilvana de FreitasAgência Folha 
São Paulo - A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Nelson Jobim de rejeitar a abertura de inquérito criminal contra o presidente do PT, deputado José Dirceu (SP), colocou em xeque a credibilidade da investigação de promotores de Justiça que atuam no caso e, por extensão, o trabalho do Ministério Público do Estado de São Paulo.
Os argumentos de Jobim para arquivar o caso também expuseram a atuação do procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, que se apoiou integralmente na apuração dos promotores de Santo André para pedir ao Supremo que abrisse o inquérito contra Dirceu.
O ministro disse que as informações que fundamentaram o pedido de Brindeiro ''não se apresentam com a idoneidade necessária para se caracterizar como fortes indícios''.
O aspecto mais polêmico é a suspeita de que o autor da acusação e a testemunha secreta que confirmaria as declarações dele são a mesma pessoa. ''O mais curioso de tudo é que tal testemunha, ao que tudo indica, é o mesmo João Francisco Daniel'', disse o ministro.
João Francisco afirmou, em depoimento a promotores, que Dirceu recebera R$ 1,2 milhão de propina recolhida por autoridades da Prefeitura de Santo André.
Os depoimentos dele e da suposta testemunha anônima teriam teor idêntico e teriam sido tomados no mesmo dia, horário e local, perante os mesmos promotores. Por fim, as rubricas dos dois seriam semelhantes. ''É surpreendente'', concluiu Jobim.
Consta que ambos teriam dito, com as mesmas palavras, que Gilberto Carvalho havia confidenciado a cada um deles que, por diversas vezes, levara dinheiro pessoalmente a Dirceu e que entregara R$ 1,2 milhão em uma das vezes.
Segundo João Francisco, Míriam Belchior, ex-mulher do prefeito assassinado, dissera que recursos recolhidos de empresas eram desviados para o PT. Jobim observou que nenhum dos dois foi ouvido pelos promotores.
O advogado de Dirceu, Antônio Carlos de Almeida Castro, disse que o Ministério Público de São Paulo tem a obrigação de esclarecer as falhas na apuração. ''Se fazem isso no STF com o presidente de um partido, imagine o que pode acontecer com o cidadão comum'', disse o advogado.
A reportagem tentou ouvir Marrey, mas ele não foi localizado até as 18h46 de ontem. Em entrevista recente, tanto ele quanto Brindeiro negaram a possibilidade de uso eleitoral da investigação contra Dirceu.


