Debate entre Lula e Flávio tem ataques e poucas propostas
Analistas apontam excesso de confronto pessoal, perguntas sem resposta e estratégias para desestabilizar o adversário
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 19 de outubro de 2026
Analistas apontam excesso de confronto pessoal, perguntas sem resposta e estratégias para desestabilizar o adversário

Depois de ambos ficarem de fora dos debates do primeiro turno, o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) se enfrentaram pela primeira vez na campanha presidencial. No domingo (18), os candidatos participaram do debate realizado pela Band, a uma semana do segundo turno. Acusações mútuas, provocações e uma série de perguntas sem resposta deram a tônica do encontro, enquanto a apresentação e o aprofundamento de propostas ficaram em segundo plano.
O clima de confronto ficou evidente já no primeiro bloco, que reservou 30 minutos para o embate direto entre os candidatos. Flávio citou a empresária e lobista Roberta Luchsinger, que, em entrevista à CNN Brasil, fez acusações envolvendo Lula e o filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Lula respondeu que o caso deveria ser tratado pela Polícia Federal e, na sequência do embate, levou ao debate à polêmica em torno do pedido de R$ 134 milhões feito por Flávio ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro.
Ao longo do programa, os dois também divergiram sobre segurança pública, saúde, economia, política externa e direitos trabalhistas, mas o tom pessoal continuou presente. Flávio adotou uma postura de confronto também fora de seus momentos de fala, circulando pelo palco e fazendo gestos e expressões enquanto Lula respondia. Em alguns momentos, os mediadores precisaram intervir para conter interrupções.
Na avaliação do analista político Elve Cenci, professor de ética e filosofia política da UEL (Universidade Estadual de Londrina), o objetivo das campanhas parece ser “obter a maior rejeição possível contra o oponente”, o que pode explicar a troca de ataques no debate.
“Quem for mais rejeitado ou representar mais medo, perderá. A ausência de propostas não ajudou o eleitor indeciso. Ficou evidente a influência de Pablo Marçal na tônica dos ataques. Houve poucas propostas, muita encenação e poses para a internet”, pontua o analista.
Cenci também entende que responder a uma questão espinhosa levantando outro assunto é uma estratégia para evitar a pergunta original. Ele cita como exemplo a reação de Flávio às cobranças de Lula sobre o caso “Dark Horse”.
“Mesmo com a fuga, Lula tratou de manter o tema em evidência pelo maior tempo possível. Para o eleitor atento, fica claro que o candidato está evitando responder a pergunta”, aponta. “Uma pergunta importante sem resposta pode sim provocar prejuízo eleitoral.”
A leitura do cientista político Ronaldo Gaspar, professor do departamento de Ciências Sociais da UEL, é semelhante. Para ele, o debate poderia cumprir a função de esclarecer o eleitor caso fosse pautado pela apresentação de propostas e pela análise concreta dos problemas do país, e não por acusações. “O confronto direto é um formato inadequado”, opina o especialista.
ESTRATÉGIA NO PALCO
Gaspar compara a postura adotada por Flávio ao comportamento do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante a campanha presidencial de 2016, especialmente no confronto com Hillary Clinton. “Inclusive, Pablo Marçal estava na plateia orientando o candidato a fazer movimentos e cacoetes durante as falas de Lula, tentando desestabilizá-lo e desviar a atenção do eleitor do conteúdo de suas falas”, pontua Gaspar.
Cenci classificou como “molecagem” e “irresponsabilidade” a postura de Flávio ao aparecer repetidamente no enquadramento atrás de Lula durante as respostas do petista. Para ele, o objetivo era invalidar a fala do adversário e dificultar que os trechos fossem utilizados posteriormente na internet, além de tentar irritá-lo.
“O problema é que um debate presidencial não é um programa de auditório em que o participante que consegue irritar o oponente ganha. Estamos discutindo o futuro do país. O eleitor quer ver propostas para melhorar sua vida, quer comparar o que cada um tem a dizer, e não quer ver quem é o mais ‘lacrador’”, destacou o analista, que aponta que a proximidade física pode intimidar, desconcertar e gerar comparações visuais, como de altura e idade. “Em um debate presidencial, cada gesto, entonação de fala ou posicionamento no palco é detalhadamente calculado.”
Gaspar acredita que a tentativa de Flávio de se impor fisicamente durante o debate, permanecendo próximo de Lula, “soou mais como uma posição arrogante e desrespeitosa do que qualquer atributo positivo”.
PRÓXIMO ENCONTRO
De olho no próximo e último debate antes do segundo turno, marcado para sexta-feira (23) pela TV Globo, Cenci avalia que as duas campanhas poderão promover ajustes a partir do desempenho dos candidatos no encontro da Band.
“Flávio adotou uma postura de deboche, arrogância e agressividade. Lula, por sua vez, ficou perdido no posicionamento no palco em vários momentos e deixou vazios em sua fala. Acredito que todas essas questões serão discutidas com os candidatos pelos assessores.”
Gaspar também acredita em mudanças na estratégia de Lula e avalia que a campanha deverá defender alterações no formato e orientar o candidato a ser mais assertivo durante os confrontos.
“Quanto a Flávio Bolsonaro, penso que vai tentar manter o formato do debate e tentar repetir a fórmula, pois esse formato em que o confronto de ideias cede lugar ao embate pessoal é o que talvez lhe favoreça”, completa.


Douglas Kuspiosz
Repórter com foco em Política e Cidades.


