De Midas ao tico-tico
Midas pegava em coisa que transformava em ouro, nossos políticos - pelo menos boa parte deles - tratam fortunas desviadas como pixuleco, capilé ou como tico-tico, termo usado por Beto Richa numa conversa com Toni Garcia sobre o fluxograma das propinas.
Esse tratamento é a prova de que enxergam isso até por ângulo afetivo, carinhoso, despojado de qualquer noção de malfeito, e se pecado for, certamente será venial como o próprio ex-governador se referiu no caso do Ezequias Moreira em tirar grana da sogra que transformou em fantasma da Assembleia Legislativa sem que ela soubesse. A denominação graciosa tem um sentido lúdico para nominar a fraude e conceder-lhe um tom de molecagem, artimanhas de um Pedro Malasartes afastando qualquer noção do mal, do interdito, do proibido.
Por isso aquela estranheza do Lula com tanta referência à propina com cuja definição se irritou e também a dos políticos em geral, já que a praxe, o hábito, opera como direito adquirido, tal a sua naturalidade. Há várias formas de reagir à acusação, uma delas é a já consagrada por alguns "cientistas políticos" que olham esse tipo de carga como criminalização da política, tentando confundir os episódios de agora com o moralismo da UDN do século passado. Outros acusados, como o senador José Serra, recolhem-se ao silêncio.
Coincidências: a ação no mesmo dia da Lava Jato e do Gaeco, a lembrança do atentado contra as torres gêmeas e o mais sensível, o dia de nascimento de José Richa, o patriarca querido de uma família que se desviou.
Bloqueio
Sergio Moro, em função das ações desenvolvidas, determinou o bloqueio de bens dos acusados nas operações de terça-feira (11) da ordem de R$ 50 milhões. Só do chefe de gabinete, Deonilson Roldo, R$ 10 milhões, em bens.
Corrida
É uma corrida contra o relógio a de Fernando Haddad para em menos de um mês, 25 dias para ser mais exato, herdar os votos de Lula. Muitos acham que esticaram demais a corda na fantasia da elegibilidade de Lula, prejudicando o candidato e o obrigando agora à maratona. "De hoje em diante" - diz a carta do ex presidente -"Haddad será Lula para milhões de brasileiros". E o esforço da campanha será no sentido de aprofundar essa identidade e definir o estilo do substituto com destaque de suas qualidades pessoais.
Um feito já se obteve com a escolha de Haddad: une-se o partido e são mantidos vários dos coordenadores como o ex-presidente da Petrobras, José Sergio Gabrieli, os ex-ministros Luiz Dulci, Ricardo Berzoini e Gilberto Carvalho, e também o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamoto.
Os primeiros efeitos nas sondagens de vários institutos - Datafolha, Ibope, Paraná Pesquisas - já indicaram o alinhamento do petista no empate técnico no segundo lugar com Ciro Gomes, Marina Silva e Geraldo Alckmin. Bolsonaro está na frente, mas tem uma bola de ferro nos pés, a taxa de rejeição acima de 40%.
Anti PT
Geraldo Alckmin tem uma tese curiosa: a ida de Bolsonaro ao segundo turno é passaporte à volta do PT e por isso se caracteriza como o único e verdadeiro antipetista. Tentou primeiro desqualificar Jair Bolsonaro na questão da violência, deu um breque na tese em cima do atentado e agora se define como o único verdadeiramente antipetista.
Desmanche
Cada momento a polícia descobre um novo desmanche, agora o de Quatro Barras (Região Metropolitana de Curitiba). Pela persistência desses aparatos era já para haver um mapeamento, até porque ferros velhos servem também para receptação de equipamentos urbanos roubados, como cercas de terminais. Um dos magnatas de desmanches era o Caboclinho, que era muito ligado ao deputado Anibal Curi e convivia muito na Assembleia Legislativa.
Imersão
Há quem aconselhe Alvaro Dias a cuidar um pouco do seu cenário principal, que é o Paraná, embora sua perspectiva seja a de angariar votos no sul, mormente entre catarinenses e gaúchos. Orientação igual está sendo dada para Geraldo Alckmin no sentido de cuidar mais de São Paulo e buscar ali, onde foi governador quatro vezes, pelo menos 35% dos votos. Estão marcadas para os próximos dias visitas a Campinas, Jundiaí e Bauru.
Igualdade
Presos Lula, agora provisoriamente Beto Richa, permanentemente Eduardo Cunha (o que comandou a derrubada de Dilma Rousseff), o Azeredo, o Palocci, não se pode negar que há um sinal de igualdade nessas punições, desaparecendo as suspeitas de seletividade. Mas esse tipo de igualdade não tem o charme da igualdade social, aquela do trinômio da revolução francesa. Em nome da igualdade, a de todos perante a lei, o presidente do STJ, ministro João Otávio de Noronha, defende que Lula deve ir para um presídio comum, como qualquer sentenciado, sem direito a cela especial.

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