Os ministros das Relações Exteriores dos países da América Latina, da Espanha e de Portugal elogiaram ontem a decisão do Fed, o Banco Central norte-americano, de cortar as taxas de juro de curto prazo. O corte ‘‘foi discutido e os comentários foram positivos, embora a medida ainda tenha sido considerada insuficiente’’, afirmou o ministro das Relações Exteriores de Portugal, Jaime Gama. A declaração foi feita no Porto, depois de uma reunião dos ministros da área externa que preparam as resoluções a serem aprovadas na 8ª Cúpula Ibero-Americana, neste fim de semana.
Gama acrescentou que a situação dos juros internacionais ‘‘certamente’’ será discutida pelos chefes de Estado que vão participar da cúpula. ‘‘O que vai sair da cúpula do Porto será uma mensagem de confiança na América Latina, não de ceticismo’’, acrescentou.
A declaração do Porto, documento oficial com a posição comum dos países participantes da cúpula, foi conhecida antecipadamente ontem, e ratifica a preocupação do Brasil com a criação de mecanismos que garantam a estabilidade dos mercados financeiros internacionais. Apesar de a reunião somente começar oficialmente hoje, o documento já foi acertado entre os representantes diplomáticos dos países participantes do encontro.
A partir de hoje, os presidentes dos países se reúnem na cidade do Porto para discutir o tema ‘‘Os Desafios da Globalização e a Cooperação Interregional’’ e confirmarão a necessidade da criação de mecanismos de proteção, sobretudo para países emergentes, que têm economias mais sensíveis à crises financeiras. ‘‘A declaração do Porto prevê, efetivamente, uma participação mais ativa dos organismos financeiros internacionais, tal como foi acordado na última reunião do FMI em que o Brasil esteve representado pelo ministro da Fazenda, Pedro Malan’’, explicou ontem o secretário-geral do Itamaraty, Luis Augusto de Castro Neves.
Segundo o embaixador, o documento do Porto ‘‘faz um chamamento à comunidade internacional e, em particular, aos países do G-7 para que tomem as medidas necessárias para promover a estabilidade dos mercados financeiros internacionais’’. Para Castro Neves, isso ‘‘é uma condição necessária para que o Brasil possa partir para o crescimento econômico em bases duradouras’’.
A decisão da reunião acabou vindo de encontro à posição do presidente Fernando Henrique Cardoso, que tem defendido uma ação internacional contra os efeitos das ações especulativas que têm provocado pesadas crises econômicas, como ocorreu na Ásia e mais recentemente na Rússia. Desde essa crise, o Brasil tem enfrentado problemas com a perda de reservas, provocada justamente pela especulação. Na quinta-feira, por exemplo, o fluxo de reservas do País sofreu uma perda de mais de R$ 300 milhões.
Fernando Henrique quer conversar justamente sobre esse assunto hoje com o presidente da Argentina, Carlos Menem, e com o presidente do México, Ernesto Zedillo. Os três países representam justamente as principais economias da América Latina e Fernando Henrique deseja estreitar com Argentina e México uma linha de ação comum contra a instabilidade econômica.
A reunião do Porto, contudo, não tem o caráter de tomar qualquer decisão de ação, embora tenha a participação de outros importantes chefes de Estado, como Fidel Castro, de Cuba. ‘‘Não há nada de resolutivo, não há propostas de medidas concretas’’, confirma o embaixador Castro Neves. ‘‘É apenas o endosso político da comunidade Ibero-americana àquilo que vem sendo feito em outros foruns pertinentes’’, diz.
A discussão no Porto já representa uma espécie de preparação para um grande encontro internacional no próximo ano, justamente no Rio de Janeiro. Essa reunião agrupará 48 países da América Latina e União Européia. ‘‘Será um grande e importante encontra’’, afirma o embaixador.

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