Cúpula do PT teme que vítima vire réu
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sábado, 26 de janeiro de 2002
Mariana Viveiros Agência Folha 
São Paulo - Líderes petistas presentes ontem à missa de sétimo dia do prefeito de Santo André (Grande SP), Celso Daniel, foram unânimes em dizer temer que, por precipitação e na ânsia de chegar a um culpado pelo crime, a polícia e a opinião pública transformem vítima em réu.
A expressão foi usada pelo líder nacional do partido, Luiz Inácio Lula da Silva, pelo líder do PT na Câmara, Aloizio Mercadante, pelo deputado federal José Genoíno (PT-SP) e pelo Secretário de Governo de Santo André, Gilberto Carvalho, que também era amigo pessoal de Celso Daniel.
Todos faziam referência ao que consideram um pré-julgamento do empresário Sérgio Gomes da Silva, presente no momento do sequestro de Daniel e cujo depoimento à polícia apresentou contradições, mas também ao próprio prefeito morto, criticando a ação da Polícia Federal, que realizou busca anteontem à tarde no apartamento de Daniel.
Eu conversei com o presidente do PT (deputado José Dirceu) para que ele reclamasse com o ministro Aloysio (Nunes Ferreira, da Secretaria Geral da Presidência) da invasão do apartamento do Celso, disse Lula, que classificou a ação da PF de descarada.
Na avaliação do líder petista, as investigações devem ser conduzidas com seriedade para não condenarem pessoas inocentes nem isentarem verdadeiros culpados.
Na pressa de tentar achar o culpado, um bêbado na frente de uma delegacia faz uma declaração, e parece que se chegou ao responsável; dois sequestradores são presos, parece que se encontraram os criminosos; há uma contradição num depoimento, e se transforma a vítima no culpado, criticou Mercadante.
Na opinião do deputado, a PF deveria ter solicitado a presença da família durante as buscas na casa de Celso Daniel, por respeito. Nós não vamos aceitar que a imagem, a história e a memória dele sejam agredidas por quem quer que seja.
Genoíno, candidato do PT ao governo de São Paulo, disse que a polícia está desarticulada e sem autoridade, tentando encontrar explicações fáceis para o crime.
Embora tenha ressaltado que nenhuma hipótese deve ser descartada nas investigações do assassinato de Celso Daniel, a cúpula petista buscou reforçar a possível motivação política do crime. O tom foi reiterado pelo sermão de frei Betto, durante a missa, assistida por mais de 500 pessoas, na Igreja Matriz de São Domingos, em Perdizes (zona oeste).
O clima na cerimônia religiosa foi de emoção e tristeza. A mãe de Celso Daniel, Maria Clélia Belettato Daniel, e a irmã dele, Maria Clélia Daniel Barreto, ficaram o tempo inteiro abraçadas ao lado de Bruno José Daniel Filho, um dos irmãos do prefeito. Ivone Santana, namorada de Daniel, chorou durante toda a missa e não quis dar declarações. O novo prefeito de Santo André, João Avamileno também esteve presente. Sérgio Gomes da Silva não compareceu.


