Brasília - A Declaração de Brasília selou ontem o evento mais ambicioso da política externa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o reconhecimento explícito dos estados sul-americanos e árabes ao direito à resistência contra a ocupação estrangeira - uma iniciativa que deixará em aberto a possível legitimação das ações dos grupos terroristas islâmicos contra alvos em Israel e no Iraque.
Sem condenar de maneira clara o terrorismo, como havia sido antecipado e justificado pelo Itamaraty, o texto não trouxe nenhuma defesa do modelo democrático nem referências aos direitos humanos - temas sensíveis a vários dos representantes árabes - e pautou-se pela consolidação da cooperação Sul-Sul, em nostalgia com as teorias e iniciativas terceiromundistas dos anos 1960 e 1970. Restaram as críticas a iniciativas da política externa dos Estados Unidos e de Israel, reforçadas nos discursos dos líderes árabes presentes.
Alheio à delicadeza da linguagem do texto que impulsionou e firmou, o presidente Lula afirmou que a declaração poderia ser considerada um ''documento das Nações Unidas'' e que seu conteúdo traz ''aquilo que é possível colocar'' uma declaração desse porte. O texto, de fato, correspondeu inteiramente aos interesses dos 22 países árabes, conforme destacaram o presidente da Argélia, Abdelaziz Bouteflika, e o secretário-geral da Liga de Estados Árabes, Amre Moussa.
Nas negociações que se desenrolaram nos últimos seis meses, a América do Sul apresentou várias ponderações. Mas, na parte política, que consumiu cinco das 15 páginas da versão em português, acabou cedendo à maioria dos argumentos da Liga Árabe. ''A Declaração de Brasília foi clara ao assumir posições sobre a Palestina e o Iraque. Nós, do mundo árabe, estamos satisfeitos. Conseguimos coordenar nossas posições'', afirmou o secretário-geral da Liga dos Estados Árabes, Amre Moussa.
Além de legitimar indiretamente as ações terroristas de grupos como a Jirad Islâmica e o Hamas, que justificam seus atentados como resistência à ocupação estrangeira, três tópicos exemplificaram essa comunhão foram os que trataram da Palestina, da Iraque e da Síria.
No primeiro, árabes e sul-americanos refirmaram a necessidade de retirada de Israel dos territórios ocupados na Palestina desde 1967 e de criação de um Estado palestino independente. No segundo, enfatizam a necessidade do papel mais relevante da Liga Árabe - e não de outros países e coalizões - na reconstrução do Iraque e de suas instituições. Mais claramente, expressaram no texto a ''profunda preocupação'' com as sanções unilaterais aplicadas pelos Estados Unidos à Síria.
A Declaração de Brasília dedicou um capítulo especial à cooperação Sul-Sul (veja infografo nesta página), a mola-mestra da iniciativa do presidente Lula de convocar os outros 33 países a este encontro. Nesse tópico, tornou-se claro o interesse político na criação de mecanismos bi-regionais de investimentos e de parcerias nas áreas de energia, telecomunicações e transportes e na maior integração das economias.

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