Um espaço político que não discrimina governantes e no qual é possível uma discussão sobre os mais diferentes problemas. Esta é a definição mais adequada para a cúpula de países iberos-americanos que este ano se realiza na bela e quente Isla Margarita, um paraíso localizado na região caribenha da Venezuela.
‘‘É um espaço político importante porque não exclui ninguém: participam dele desde o rei da Espanha até Fidel Castro’’, resume o diretor do Departamento das Américas do Itamaraty, embaixador Castro Neves. A ligação entre os países que participam do encontro - 21 latino-americanos e seus dois colonizadores europeus (Espanha e Portugal) - é mais cultural. A maioria dos países integra diferentes blocos comerciais. Não há nessa cúpula decisões imperativas que afetem as relações comerciais.
Além da reunião de trabalho, os presidentes aproveitam a ocasião para marcar encontros bilaterais, nos quais é possível estreitar laços diplomáticos e comerciais. O presidente Fernando Henrique Cardoso recebeu o pedido para seis audiências privadas. A maior parte delas se realizou no paradisíaco hotel Isla Bonita, local que hospedou todos os presidentes e chefes de Estados da cúpula.
Em todas as cúpulas, existe uma grande preocupação do país que sedia o encontro em garantir a segurança dos presidentes convidados. Em Isla Margarita, não tem sido diferente. Oficialmente, não há confirmação, mas se estima que mais de 3 mil homens estejam a postos para garantir a segurança do evento.
A preocupação dos venezuelanos é tanto que chega a gerar cenas circenses: sem saber a quem pertencia um Fiat estacionado de forma irregular em frente do Hotel Margarita Hilton, sede das reuniões de trabalho da cúpula, os seguranças venezuelanos cercaram a área para rastrear possíveis bombas. Eles próprios acabaram explodindo a porta do carro que pertencia a um dos organizadores da cúpula. A imprensa não poupou comentários jocosos sobre a ação da segurança venezuelana. Uma comentarista de TV chegou a brincar, argumentando que ação era uma boa idéia para o problema de congestionamento enfrentado nas grandes cidades do país.
Um grupo de oito cubanos contrários ao governo de Fidel Castro também agitaram os dias que antecederam a chegada dos 23 chefes de Estado à ilha. Os anticastristas prepararam um documento para entregar aos participantes da cúpula. Cobravam de Castro a realização de eleições em Cuba, mas acabaram expulsos da ilha antes de entregar o documento. O governo venezuelano informa que gastou US$ 6 milhões para realizar a cúpula. O evento reuniu mais de 1.500 jornalistas de todo o mundo.
A declaração que será assinada pelos representes dos 23 países está dividida em três partes. Na primeira delas, formada por seis capítulos, estão considerações sobre a promoção e garantia dos direitos humanos, o compromisso com a realização material da justiça social e com a administração do Poder Judiciário, com a ética na administração pública, com a transparência nos processos eleitorais e o direito à informação.
A segunda parte trata da cooperação técnica entre os países e a terceira engloba diversos parágrafos sobre os mais diferentes temas que preocupam os governos: o compromisso com a superação da pobreza, o desarmamento nuclear, o fim do tráfico de armas e a retirada de minas terrestres na América Latina, entre outros.
Volta a integrar o texto da declaração a preocupação e o repúdio dos 23 governantes com as medidas unilaterais tomadas pelo governo dos Estados Unidos. A declaração reitera o repúdio à Lei Helms-Burton, aprovada pelo Congresso norte-americano, e à decisão dos Estados Unidos em dar ou retirar certificados de combate ao narcotráfico a países latino-americanos. Mas a declaração assume o compromisso de combate ao narcotráfico. Há paragrafos dedicados às minorias, como as mulheres e os índios.

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