Cristovam e Simon são contra impeachment
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sábado, 20 de agosto de 2005
Agência Estado 
Brasília - Na sexta-feira passada, o senador petista Cristovam Buarque (DF) e o senador Pedro Simon (PMDB-RS) debateram a pior crise política dos últimos anos a convite da Agência Estado.
Acima de tudo, cobraram do presidente Luiz Inácio Lula da Silva uma reação e criticaram o presidente por não ter permitido, há um ano, que fosse aberta uma CPI no Congresso para investigar as denúncias de corrupção contra o ex-assessor da Casa Civil Waldomiro Diniz. Acreditam que a operação abafa estimulou esquemas ilícitos que agora são revelados.
Simon diz que o presidente é um político, mas não um administrador. Cristovam reclama da falta de ação. Ambos atacam o ex-ministro José Dirceu. Apesar da gravidade da situação, repetem que o impeachment não é o caminho.
Agência Estado - Como se chegou a uma crise tão profunda?
Cristovam Buarque - Tenho responsabilidade com o que aconteceu, sou do diretório, o fato de ter combatido essa direção e nunca ter ido às reuniões do diretório é um agravante. O PT surgiu em 1980, no tempo do Brasil fechado em que o socialismo resumia o nosso objetivo. O PT não precisou formular um projeto para o País, se escondeu atrás da palavra socialismo. Quando chegamos ao poder, essa realidade tinha acabado e o PT, ao invés de adaptar-se, entregou-se.
AE - Qual é a diferença?
Cristovam - Ao adaptar-se, você pode até mudar, mas tem princípios permanentes. No caso, resolver a questão social brasileira. Ficamos sem bandeira, nos limitamos à idéia da reeleição (do presidente Lula). E aí tudo passa a valer em nome da reeleição, como conseguir dinheiro. Enquanto isso era discreto, o PT mantinha a idéia da ética. A ética desaparece porque não tem uma causa que a controle. O político sem uma causa de luta só depende do tempo para ficar corrupto. Uns demoram, outros não. O PT entrou nessa crise geral por falta da causa.
Pedro Simon - Eu acrescentaria aí a maneira que começou. Eu dizia: ''Lula, o Brasil inteiro está torcendo para dar certo. Tem que governar com os mais capazes''. Lula respondeu: ''É, mas eu tenho tantos parlamentares, tenho que ver...'' E Lula fez um ministério sem a mínima preocupação de governar, com vários ministros que tinham perdido eleição. Chega aqui (no Congresso) e o PT vai comprar a bancada? Compor a maioria na base de dobrar a bancada do PTB, do PP, do PL? E agora está se provando como foi feito isso, compraram em dinheiro. Nenhum partido, dos mais vigaristas, nem a ditadura fez isso. Então começou mal. E Lula - hoje está provado - não é um administrador, é um grande político. Lula disse que José Dirceu ia levar o governo. Mas Dirceu também não dava para o negócio. O grande erro é que Lula não tem o comando. Tinha José Dirceu, que pegou e não fez.
AE - O que os senhores esperavam de Lula a essa altura da crise?
Simon - Discordo das pessoas que fazem críticas muito pesadas a ele. Vi um Lula que não era o Lula (em discurso durante reunião ministerial, no último dia 12), baqueado, olhava para o chão, para o teto. Ele disse que foi traído. Eu digo: José Dirceu, o mais culpado foi você. Se não tivesse Dirceu não teria tesoureiro, secretário do PT. Lula diz que quer apurar, demitiu os caras citados até aqui. Não demitiu, lamentavelmente, o presidente do Banco Central. Não fez mais porque não sabe fazer mais. Fez o que podia. É com mágoa que digo isso, porque achava o Lula um baita líder. José Dirceu pegou uns cumpridores de ordens, não queria que pensassem. Aí foi o crime.
Cristovam - Mas as ordens do Zé não eram para mudar o Brasil. O primeiro erro de Lula foi ter um chefe da Casa Civil forte. Zé não cabia na roupa da Casa Civil. É maior. Na história do Brasil, são sempre auxiliares discretos. Zé não tinha projeto de mudar o Brasil, mas viabilizar a reeleição do Lula e talvez a sua própria eleição em 2010.
AE - Haverá uma reforma eleitoral para 2006. Ela já permite frear as campanhas milionárias?
Cristovam - Sem dúvida. Mesmo que não houvesse nenhuma lei, a próxima eleição já vai ser melhor por causa do trauma.
AE - A acusação a Palocci (seu ex-assessor Rogério Buratti diz que ele recebia propina de R$ 50 mil mensais de uma empresa de lixo quando era prefeito de Ribeirão Preto) é mais um ingrediente da crise ou abala definitivamente o governo?
Simon - É um ingrediente bem mais grave, porque Palocci vinha sendo preservado e não havia nada contra ele. Se a denúncia é verdadeira, é muito ruim.
AE - Será que agora se desemboca no processo de impeachment?
Cristovam - Vou lutar contra. Só vou defender isso quando o povo todo estiver na rua.
Simon - Lula não é Collor e o PT não é o PRN. Se acontecer isso haverá uma crise de consequências imprevisíveis. Temos que rezar para que não aconteça.


