Brasília - O PT precisa ter uma posição clara em relação aos problemas nacionais para impedir a manipulação política das declarações do candidato a presidente Luís Inácio Lula da Silva. Mas para conseguir isso, terá de resolver as contradições de suas correntes políticas. A receita é do ex-governador do Distrito Federal, Cristóvam Buarque, que defende a instituição de um núcleo forte das doutrinas partidárias sustentadas pelas vozes dominantes do partido.
Buarque sustenta que a ambiguidade prejudica o partido, principalmente porque alguns setores da sociedade preferem dar ouvidos às suas correntes minoritárias e explorar as aparentes contradições. ‘‘Estou convencido de que Lula defende coisas totalmente aceitáveis pelo mercado, por exemplo, mas não há clareza nas suas propostas’’, avalia o professor e escritor, que tem sido mencionado como um dos possíveis candidatos a vice-presidente na chapa de Lula.
‘‘Lula tem grande peso no partido, mas os outros setores da sociedade dão mais ouvido às correntes que acabam fazendo mais barulho ao afirmar o contrário do que ele declara’’, explica. ‘‘A unanimidade não é possível, mas se o partido decidir pelo voto que é a favor da lei de Responsabilidade Fiscal, que não rasga contratos, quem for contra tem que submeter-se à maioria e unificar o discurso’’, diz Buarque. Com esse núcleo forte de doutrinas definidas, explica, é possível afirmar o que ele chama de ‘‘petismo’’.
‘‘Porque tudo afeta o PT? Porque temos petistas, mas não temos petismo’’. Por falta de um elenco de políticas definidas é que o partido passa a valorizar o discurso da ética e da moralidade, aponta. ‘‘O PT só tem uma dificuldade: a ambiguidade, que só vai acabar com a definição de uma posição majoritária que seja efetivamente dominante’’, conclui.
Cristóvam acredita que, sem a ambiguidade no discurso, constrangimentos como aqueles causados pela invasão do Movimento dos Sem-Terra (MST) na Fazenda Córrego da Ponte, em Minas Gerais, dos filhos do presidente Fernando Henrique, não existiriam. A crise provocada em Brasília pelas acusações de facções do partido de utilização de recursos desviados da Asefe também seriam minoradas.
‘‘Crises como essas não teriam o alcance que têm’’, avalia, ‘‘pois não atingiriam esse núcleo forte’’, que segundo ele poderá ser compreendido pela sociedade.

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