Rio - Muito distante da marola anunciada pelo presidente Lula, a atual crise econômica deverá adicionar emoção e incerteza à corrida rumo às eleições de 2010. Para economistas e cientistas políticos ouvidos pela Agência Estado, a turbulência e seus efeitos sobre a economia real aumentam a chance da oposição no pleito e vão exigir muito trabalho do governo para manter os investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e não descuidar da área social.
  A ciência política diz que normalmente a conjuntura econômica favorável leva à manutenção de um grupo no poder, enquanto um cenário desfavorável na economia incentiva a alternância, segundo observa o analista político da Tendências Consultoria, Rogério Schmitt. ‘‘A economia é um fator decisivo em eleições, sobretudo as majoritárias’’, lembra.
  O cientista político César Romero Jacob, da PUC-Rio, ressalta ser ‘‘óbvio’’ que a comparação imediata que se faz neste atual momento de crise, em relação à sucessão presidencial, é que o difícil cenário de 1999 ‘‘de algum modo atropelou os planos de Fernando Henrique Cardoso (presidente de 1994 a 2002) fazer o seu sucessor’’.
  Segundo Jacob, o sucesso do atual governo no pleito presidencial vai depender das políticas adotadas para enfrentar a crise. ‘‘Se o Brasil se sair bem de toda essa turbulência, Lula será visto como um vitorioso. Se sair mal, é claro que o mito cairá por terra nas camadas populares’’, acredita.
  Esforços para sair da crise, de olho nas eleições, não vão faltar na avaliação da historiadora Marly Motta, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Segundo Marly, um retrospecto mostra que a última grande depressão econômica, em 1929, teve um impacto político muito forte no Brasil, sendo um dos principais fatores a deflagrar a revolução de 30.
  Ela ressalta ainda que nos últimos anos, no governo Fernando Henrique e no governo Lula ‘‘há uma compreensão muito, muito clara de que o grande trunfo é o bom desempenho econômico’’. Para ela, o presidente Lula é ‘‘muito pragmático’’ e sabe sua popularidade está ‘‘colada à sensação de bem-estar econômico no País’’. Por isso, segundo ela, a expectativa é que sejam adotadas ‘‘as medidas necessárias, não importa a ideologia’’.
  Schmitt, da Tendências, avalia que ‘‘a gravidade política da crise para o governo é proporcional à duração que ela terᒒ. Ele ressalta que quanto mais perto das eleições, pior. Além disso, os efeitos sobre os planos do governo também vão depender da intensidade da turbulência daqui para frente e, sobretudo, da reação às dificuldades.
  Obstáculos a parte, o analista da Tendências ressalta o significativo trunfo que a elevada popularidade do presidente Lula representa neste momento e, provavelmente, em 2010. ‘‘O presidente tem um patamar muito confortável de avaliação, numa aprovação que chega a 80%. Mesmo que a crise se prolongue, essa popularidade não deverá cair abaixo de 50%, isso é o pior que pode acontecer e é um patamar muito razoável’’, sublinhou. De qualquer modo, Schmitt avalia que a crise aumenta as chances da oposição.
  O impacto de uma crise como essa sobre a percepção da população e a opinião pública, segundo Schmitt, começa a ser percebido quando a turbulência chega à economia real, ou seja, nas empresas e no emprego. Esses efeitos, segundo ele, chegam com dois a três trimestres de defasagem em relação ao início da crise, ou seja, começarão a ser vistos mais claramente em abril do ano que vem.

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