Crise reduz arrecadação de governos em R$ 15 bi
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sábado, 22 de novembro de 2008
Fábio CavazottiReportagem Local 
A crise econômica mundial ainda não chegou à economia real brasileira - portanto é tempo de trabalhar para evitar o pior. Em 2009, o cenário adotado pelo Governo Federal aponta para redução 1% no crescimento econômico, mas está descartada a possibilidade de recessão - como já registram alguns países ricos da Ásia, Europa e América do Norte. As declarações foram feitas pelo ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, ontem, em visita à FOLHA.
Bernardo diz que, para contornar o enxugamento no crédito por parte dos bancos privados, o governo tem tentado aumentar o volume de empréstimos pelos bancos públicos. Em sua visão, a eleição de Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos sinaliza para um maior controle do mercado financeiro, o que pode levar a uma superação da crise a partir do segundo semestre do ano que vem.
Na agricultura, o ministro do Planejamento acredita que o Brasil teve sorte ao ser atingido pela crise após a consolidação do financiamento da safra que está começando. Se a restrição do crédito tivesse chegado antes, a agricultura chegaria a um cataclisma.
Sobre a política londrinense, o ministro fez uma avaliação com altos e baixos sobre o governo Nedson Micheleti - do qual foi secretário de Fazenda no primeiro mandato. Segundo ele, Nedson colocou o dia a dia da administração em ordem, mas pecou na lentidão para elaborar projetos e captar recursos do governo federal. Nessa entrevista exclusiva à FOLHA, Paulo Bernardo também falou sobre a sucessão do governador Roberto Requião, em 2010. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Folha - Qual a queda estimada no crescimento econômico em razão da crise?
Paulo Bernardo - No ano passado, tivemos 5,4% de crescimento; este ano vamos crescer 5,3%, ou 5,4%; e no ano que vem estávamos achando que conseguiríamos pelo menos 4,5%, mas reestimamos para 4%. Mas, se a gente não trabalhar, vai ser 3%, ou 3,5%. Não podemos deixar o crédito continuar sumido. Estamos aumentando o volume de operações dos bancos públicos para cobrir um pouco a lacuna deixada pelos bancos privados.
E a queda no orçamento de 2009?
Vamos ter, no total, aproximadamente R$ 15 bilhões a menos de receita - sendo R$ 8 bilhões para a União. De fato, é uma perda importante, mas considerando o tamanho do orçamento temos condição de acomodar.
Onde será passada a tesoura?
O corte terá que ser distribuído. Não tem nem um lugar que dê para acomodar R$ 8 bilhões. Vamos diluir entre todos os ministérios.
Como reverter a queda nos empréstimos bancários - mesmo com a liberação de crédito para os bancos?
Uma coisa é a crise gerada pela desconfiança, mas acho que pode ter também um componente mais perverso que é o cara ter dinheiro e esperar o outro afrouxar a perna para ele tentar comprar. Quando lançamos a medida provisória autorizando o Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal a comprar (bancos menores), na verdade é uma forma de dizer para os grandes bancos que nós vamos deixar um canibalizar o outro.
A idéia é evitar o cenário do quanto pior, melhor - para os bancos?
Isso. É uma opção para sinalizar que a consolidação dos bancos não vai acontecer na base do deixo você arrebentar que compro mais barato.
E como fazer o crédito chegar ao setor produtivo?
Com o setor produtivo estamos fazendo reuniões diárias. Chamamos lá os produtores de adubo, cooperativas, revendedoras de veículos, as montadoras, os próprios bancos, a rede varejista, para ver o que está acontecendo. Com isso, a gente vai identificando o tipo de problema para tratar de atender. Esse trabalho depende de um bom diagnóstico.
Os juros do setor bancário já subiram?
A Caixa não aumentou, mas os bancos particulares já aumentaram para 11%, até 13% ao ano. Nós fizemos um acordo com a Caixa e o BB para financiar imóveis de funcionários públicos com taxa de 7%.
E o reflexo da crise no emprego?
Este ano, teremos 2,2 milhões de novos empregos com carteiras assinadas. E isso significa que até o Natal vamos estar andando bem. O que prevemos para 2009 é que vamos continuar gerando emprego, mas num ritmo menor. Talvez, caindo para 1,5 milhão.
Como a retração econômica afeta a agricultura?
Se fosse em junho, teríamos um cataclisma porque não ia ter financiamento para a safra. Mas, quando ela veio, uma parte da safra já estava plantada e a outra parte estava encaminhada. Para a colheita, nós vamos acompanhar para não deixar faltar dinheiro para o diesel, armazenamento, preços para compra. Tudo isso nós vamos trabalhar antes da safra.
E o futuro da crise? O resultado das eleições nos EUA podem ajudar a economia mundial?
Acho que a eleição de Barack Obama vai ajudar muito se ele resolver a crise norte-americana. A verdade é que os Estados Unidos hoje parecem um buraco negro; eles estão afundando e levando todo mundo junto. Obama tem condição política de regulamentar o mercado e tomar medidas capazes de reativar a economia. Estamos esperando que eles comecem a sair da crise no segundo semestre de 2009.
Passando para a política londrinense... Como o senhor avalia a impopularidade da gestão Nedson Micheleti, da qual participou como secretário de Fazenda?
Eu já falei para o Nedson: você tem um problema grave, a popularidade não é boa, e não se pode atribuir isso a mais ninguém a não ser você mesmo. Acho que teve problema na condução política, na gestão da comunicação e no diálogo com a cidade - o prefeito precisa fazer isso também. Agora, se você olhar a Londrina de oito anos atrás e hoje, não tenho dúvida de que a gestão dele vai ter que ser reconhecida. Na quinta-feira eu dei uma palestra na PUC e disse a eles, talvez a doação desse terreno tenha sido a principal obra dele. Aquilo virou uma universidade e já estão planejando um novo prédio enorme para o ano que vem.
Mas há muita crítica ao dia a dia da administração...
Eu acho que a cidade está cuidada. É difícil entrar numa cidade e ver as ruas limpas, lisas, ver a faixa pintada, isso não tem em todo lugar não. Em Joinvile, com uma população igual à de Londrina, e com um orçamento que bate o nosso - R$ 1,4 bilhão a R$ 800 milhões -a cidade não está bonita como Londrina.
Por que Londrina não consegue atrair recuros federais como Maringá, por exemplo?
Eu acho que nós estamos vivendo um momento muito positivo para os municípios - as receitas e os repasses voluntários aumentaram bastante. E temos atendido emendas. De fato, Maringá tem se mostrado muito ágil e eficaz nessa trabalho. Eles fizeram um projeto para a Vila Olímpica e foi liberado. Fizeram o Novo Centro, que era coisa encalacrada na cidade há mais de dez anos, e liberei. Agora, estão fazendo o contorno norte.
E o Teatro Municipal de Londrina? Por que não começou?
A verdade é que nós não temos um projeto pronto do Teatro Municipal. Mesmo que eu queira ajudar, não posso liberar recursos sem ter projeto.
Então, a difença entre os municípios que conseguem e os que não conseguem verba é a agilidade nos projetos?
Nesse quesito, o que posso dizer é o seguinte: se não tem projeto, não tem como (liberar). Falta articular essas coisas. Esse contorno norte de Maringá é uma obra de mais de R$ 100 milhões e estamos colocando (dinheiro) lá.
O senhor pensa numa candidatura ao governo em 2010?
Acho que a maioria do PT claramente se manifesta em favor de ter um candidato no Paraná. Nós temos nomes: o (presidente da Itaipu) Jorge Samek, o Nedson Micheleti, e eu mesmo.
A impopularidade do Nedson não o inviabiliza?
Você fala isso porque está aqui e fica no dia a dia olhando... Pode ser que daqui a dois anos Londrina esteja com saudade do Nedson. Não despreze essa possibilidade: olha o que já está anunciado no pós-Nedson. Vai chegar em janeiro e não vai ter prefeito.


