Crise política bate às portas do Planalto
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de abril de 2001
Christiane Samarco e Sílvia Faria Agência Estado De Brasília 
A crise política em torno da violação do painel de votação dos senadores, que estava confinada no Senado, bateu às portas do Palácio do Planalto e ganhou contornos de crise de governabilidade. É esta a avaliação partilhada por aliados e adversários do governo. Pior, diz o vice-líder do PFL, senador Eduardo Siqueira (TO), é que o governo não está articulado para administrar os interesses conflitantes entre os partidos da base aliada nem a instalação iminente da CPI ampla para apurar corrupção no País.
A crise atravessou a rua, em direção ao Palácio, e a margem de manobra do governo daqui para frente é muito pequena, atesta o líder do PPS no Senado, Paulo Hartung (ES). De fato, a serenidade do Planalto, que passou os últimos dias sustentando que a crise do painel era problema exclusivo dos senadores, deu lugar ao nervosismo que beira o destempero.
O clima de cassação contaminou o presidente do PMDB e do Senado, Jader Barbalho (PA), e agravou a ameaça da CPI a tal ponto, que um dos ministros políticos do presidente sugere que o governo não perca tempo nem meça esforços para evitar o inquérito. A meta desta CPI é a cabeça do presidente, resume.
Embora ainda sustente a maioria governista no Congresso e ressalte que o governo não tem nada a temer, o secretário-geral da Presidência e coordenador político do governo, Aloysio Nunes Ferreira, dá sinais claros de que a situação foge ao controle. Eu receio que o hospício político possa transbordar, agravando a crise e paralisando as atividades do Congresso.
O ministro está convencido de que a investida da oposição em favor do inquérito é um acerto de contas de quem não quer apurar nada. A CPI é um misto de oportunismo, atingindo as raias da safadeza, sentencia.
Enquanto líderes de oposição acusam o governo de acionar o balcão de negócios para evitar a investigação, Aloysio também se queixa das reivindicações que recebe dos parlamentares. Ele atribui o clima pró-CPI a mais um resquício da guerra entre os dois maiores cardeais da base aliada (Jader e ACM) e aponta contradições de elementos típicos de escória parlamentar.
Mas tanto líderes governistas quanto de oposição admitem que o Planalto também contribuiu para agravar a crise esta semana. Eles avaliam que Fernando Henrique cometeu um erro político grave, ao deixar vazar sua opinião sobre a cassação inevitável não apenas dos dois envolvidos na fraude do painel Antonio Carlos e José Roberto Arruda, como também a de Jader.
Até os tucanos e pefelistas concordam que a imprudência presidencial gera, no mínimo, má vontade do PMDB para barrar a CPI. FHC tentou desmentir o comentário mas, coincidência ou não, o líder do PMDB na Câmara, Geddel Vieira Lima (BA), acusou o golpe. Ele deixou claro que não moverá um dedo para retirar assinaturas de peemedebistas que aderiram à CPI. Fiz muito proselitismo contra e me expus além da conta, mas dou por encerrada minha luta, diz.


