Brasília - O ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, pediu ontem demissão ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e vai reassumir seu mandato na Câmara. Deputado federal licenciado e fiador das alianças eleitorais que conduziram Lula ao Palácio do Planalto, em janeiro de 2003, Dirceu era a cara do PT no governo e chegou a ser o mais poderoso dos ministros. Deixa o cargo na mais grave crise política da administração petista, exatamente dois dias depois de o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) pedir sua saída para não transformar o presidente em réu.
''Não me envergonho de nada que fiz. Tenho as mãos limpas, o coração sem amargura. Saio de cabeça erguida do ministério. Continuo no governo como deputado da base de sustentação e continuo no governo porque sou PT'', afirmou Dirceu, em discurso de despedida, no Planalto, citando a mãe, a mulher Maria Rita e os filhos Zeca Dirceu, prefeito de Cruzeiro D'Oeste (PR), Joana e Camila. Jefferson acusou Dirceu de envolvimento no esquema de pagamento de mesada a deputados.
Bastante emocionado, e protegido por um cordão de isolamento formado por 18 ministros, além de deputados e senadores do PT, o chefe da Casa Civil afirmou que sempre sonhou em governar o Brasil com Lula. ''O governo do presidente Lula é a minha paixão, é minha vida. Ao sair deixo aqui parte da minha alma, mas não deixo a minha alma. Tenho humildade de voltar para a Câmara como militante. Eu sei lutar na Planície e no Planalto.''
Dirceu comunicou sua demissão em carta endereçada a Lula, com 19 linhas, depois de almoçar com ministros e parlamentares do PT. O presidente respondeu com outra carta, ''louvando o desprendimento pessoal'' do companheiro. ''Só pessoas de sua grandeza são capazes desses gestos'', escreveu o presidente.
Lula ainda não anunciou o substituto de Dirceu. Um dos cotados é o governador do Acre, Jorge Viana, que também é do PT. Apesar de ter seu nome citado há tempos, o prefeito petista de Aracaju, Marcelo Déda, negou que vá ocupar a vaga. No Planalto, uma das idéias em discussão prevê um novo formato para a Casa Civil, que poderia voltar a abrigar a Coordenação Política. Mas Lula ainda não bateu o martelo na mudança. Por enquanto, o secretário-executivo da Casa Civil, Swedenberger Barbosa, assumirá interinamente o cargo.
Presidente licenciado do PT, partido que comandou de 1995 a 2001, Dirceu começou a perder poder em fevereiro de 2004, depois do escândalo chamado Waldomiro Diniz, o assessor da Casa Civil flagrado pedindo propina a um bicheiro. Na noite de ontem, com voz embargada, ele afirmou que mobilizará o PT ''para dar o combate àqueles que querem interromper o processo político democrático, e querem desestabilizar o governo''. Disse que o governo tem uma agenda de mudanças políticas e sociais para ser votada no Congresso.
Fora do governo, Dirceu fará hoje dois discursos contundentes para se defender das acusações de Jeffferson e fazer a defesa do PT e do governo. O primeiro será em seu território a sede do PT em São Paulo , onde participará do encontro do campo majoritário, que reúne as alas moderadas do partido. Depois, ele falará no ato em defesa do PT, marcado para as 19 horas. A amigos, repetiu uma frase dita por Lula, nos últimos dias. ''Não vai sobrar pedra sobre pedra'', garantiu.

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