CRISE POLÍTICA - Não vou abaixar a cabeça para a elite, diz Lula
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 22 de julho de 2005
Folhapress 
Brasília - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que a elite brasileira não vai fazê-lo baixar a cabeça, no seu discurso mais incisivo após o aguçamento da crise política. Depois de almoçar com trabalhadores no bandejão de refinaria da Petrobras, em Duque de Caxias (município da baixada fluminense a 35 km do Rio), definiu-se como filho de mãe e pai analfabetos, tendo como única herança andar de cabeça erguida. ''Minha mãe não era capaz de fazer [a letra] ''O' com um copo. Um dos legados que eles me deixaram, não só para mim, mas para a família, é que andar de cabeça erguida é a coisa mais importante que pode acontecer para um homem e uma mulher. Portanto, eu conquistei o direito de andar de cabeça erguida neste país. E não vai ser a elite brasileira que vai me fazer abaixar a cabeça'', disse o presidente.
Pela manhã, em solenidade em fábrica de medicamentos em Jacarepaguá, zona oeste do Rio, Lula havia minimizado a crise. Mas, à tarde, Lula endureceu o tom contra os opositores ao falar para uma platéia de funcionários da Reduc (Refinaria Duque de Caxias) e de alguns executivos e sindicalistas que acompanhavam a posse do novo presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, que substituiu José Eduardo Dutra, que concorrerá ao senado.
Antes da posse, Lula participou da inauguração de uma nova unidade da refinaria. Na cerimônia, o presidente recebeu presentes de funcionários e prestadores de serviços da Petrobras, posou para fotos e autografou macacões dos operários. Ao ressaltar seu perfil ''ético'', o presidente arrancou aplausos do público, sendo interrompido por duas vezes. ''Quero dizer uma coisa, meus companheiros e companheiras: neste país de 180 milhões de milhões de brasileiros, pode ter igual, mas não pensem que tem nem mulher nem homem, que tenha a coragem de me dar lição de ética, moral e honestidade (aplausos). Neste país, está para nascer alguém que venha querer me dar lição de ética.''
Embora tenha criticado ''as elites'' e destacado o ''pessimismo'' de setores da sociedade que só ''conseguem visualizar a desgraça'', o presidente afirmou que tem ''a exata noção'' da crise pela qual o país passa e que todas as denúncias de corrupção serão investigadas. Mas afirmou que é preciso ter ''serenidade''.
''Eu quero falar uma coisa com muita sobriedade: tenho a exata noção do que está acontecendo no Brasil nestes últimos tempos. Tenho a exata noção dos objetivos (do país). E tenho a exata noção de que neste momento temos de ir com muita serenidade, de não deixar escapar nenhuma denúncia neste país'', disse o presidente.
Ainda que de modo indireto, Lula disse que nem mesmo o PT deixará de ser investigado. ''Em apenas 30 meses, a Polícia Federal, sob o comando do ministro Márcio Thomaz Bastos (Justiça), já prendeu mais corruptos nesse país do que nos outros governos. Não é que aumentou a corrupção. Aumentou a ação da polícia, do Ministério Público. E vai ser assim. Tem de ser assim, na nossa casa [PT], na casa de todo mundo, para construir um país sadio.''
Apesar de afirmar que sempre é ''instado a ficar quieto'' por assessores e pessoas próximas, o presidente lembrou que não possui imunidade. ''O presidente é única instituição que não tem imunidade. Qualquer um de vocês pode fazer um processo contra mim. Contra um senador não pode. Contra um deputado não pode.''
Ao criticar ''as elites'', para as quais seu sucesso de seu governo ''é uma grande frustração'', Lula enumerou realizações na área econômica. Citou a expansão do crédito consignado em folha de pagamento e para aposentados do INSS e o financiamento à agricultura (especialmente a familiar, que receberá R$ 9 bilhões neste ano, segundo o presidente). Disse que as medidas de expansão da oferta de crédito irrigaram a economia.


