Crise paraguaia preocupa Mercosul, diz Sanguinetti
O presidente do Uruguai, Julio Maria Sanguinetti, admitiu ontem que a crise política paraguaia ainda preocupa o Mercosul - o bloco econômico criado há sete anos, por seu país, Brasil, Argentina e Paraguai. Ele lembrou que o Mercosul é um clube democrático, além de uma união aduaneira entre países vizinhos. Quem se afastar da democracia se afastará do Mercosul, disse Sanguinetti, antes de inaugurar, em Brasília, dois dias de debates sobre Investimentos Sociais e Governabilidade Democrática. Mas ele também lembrou que, apesar das dificuldades existentes hoje no Paraguai, na América Latina nunca houve tanta democracia quanto agora.
Como exemplo Sanguinetti citou os impeachments dos presidentes Fernando Collor, em 1992, e Carlos Andres Perez, em 1993 - ambos acusados de corrupção. E lembrou que, tanto no Brasil, quanto na Venezuela, essas duas crises acabaram fortalecendo a democracia. As instituições democráticas paraguaias também foram colocadas a prova em abril de 96, disse Sanguinetti.
Em outros tempos, o que ocorreu em 96 teria sido um golpe de estado, disse ele, referindo-se à tentativa do general Lino Oviedo, de desestabilizar o governo do presidente Juan Carlos Wasmosy. Oviedo, que na época foi passado para a reserva, é o estopim da nova crise.
Eleito candidato a candidato pelo Partido Colorado (do governo) às eleições presidenciais de 10 de maio, Oviedo não pode fazer campanha porque foi preso. Ele foi condenado por um Tribunal Militar Extraordinário, constituido este ano por Wasmosy, para julgá-lo pela tentativa de golpe de 1996. Mas a justiça comum questiona a validade desse julgamento.
Tanto Sanguinetti quanto os presidentes Carlos Menem, da Argentina, e Fernando Henrique Cardoso, foram convidados por Wasmosy para um evento, no próximo dia 26: as comemorações do sétimo aniversário da assinatura do Tratado de Assunção, que criou o Mercosul. Mas os três decidiram que esta não é a melhor hora para visitar o Paraguai. Não querem desembarcar lá, no momento em que os oviedistas acusam o governo de querer adiar as eleições e dar um golpe branco contra o candidato favorito.
É evidente que existe uma situação conflitiva no Paraguai e o Mercosul vê isso com preocupação, disse Sanguinetti. Mas ele também disse que o Mercosul não interfere nas políticas internas dos países membros e que confia na capacidade de Wasmosy de solucionar o problema de forma democrática.
Sanguinetti também falou sobre os temas deste ano, do Círculo de Montevidéu, criado por ele em 1996. Trata-se de um grupo (integrado por dezenas de presidentes, ex-presidentes, ex-ministros, representantes de organizações internacionais e acadêmicos) que se reúne uma vez ao ano para debater as principais preocupações da América Latina. (AE)





