BRASíLIA - Os efeitos políticos da denúncia de corrupção no PT começam a ser sentidos na divisão de forças dentro do partido e podem levar a uma mudança de rumos na campanha eleitoral de 1998. As acusações feitas por Paulo de Tarso Venceslau sobre favorecimento à empresa CPEM - Consultoria para Empresas e Municípios por prefeituras petistas já levaram ao afastamento do principal líder do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, do quadro de diretores do partido.
Setores do PT avaliam que o desgaste de Lula torna possível o crescimento da candidatura do ex-prefeito de Porto Alegre Tarso Genro à Presidência da República. ‘‘É inegável que, neste episódio, tanto o PT quanto Lula saíram chamuscados, e cresce a candidatura Tarso Genrso’’, afirmou o terceiro-secretário da Câmara dos Deputados, Paulo Paim (PT-RS).
Considerando-se da ala mais independente do partido, o deputado avalia que o ‘‘prejuízo’’ sofrido por Lula só será reversível se ele e o partido partirem para a ofensiva e defenderem, prioritariamente, a instalação de CPIs nas prefeituras administradas pelo PT e envolvidas nas denúncias.
‘‘O Lula é o candidato de consenso dentro do partido’’, concordou Paim. ‘‘Mas se ele, devido à conjuntura, entender que não deve ser candidato, Tarso Genro está mais que credenciado para ser o candidato do partido com potencial para ganhar as eleições’’, afirmou. A avaliação de Paim foi compartilhada por alguns companheiros de partido num encontro informal na quarta-feira à noite, em Brasília.
O líder do PT no Senado, José Eduardo Dutra (SE), acredita que só uma decisão pessoal de Lula poderá mudar os rumos da campanha de 98. ‘‘Até hoje Lula não afirmou que quer ser candidato, mas ele é o nome mais forte do partido e isso só depende dele’’, afirmou. Ligado à Articulação - corrente de Lula e do presidente do partido, José Dirceu -, o senador admitiu que as denúncias podem acabar influindo na decisão pessoal de Lula de concorrer na campanha do ano que vem. ‘‘E aí, por tabela, essa decisão favoreceria Tarso Genro’’, completou.
A preocupação do líder do PT vai além. O partido passa por um processo de renovação dos diretórios municipais e existe o temor de que esse episódio tenha um reflexo direto no resultado das eleições. A escolha dos delegados municipais influirá diretamente na renovação do diretório nacional, marcada para final de agosto.
‘‘O sinal amarelo foi aceso’’, comentou ele, ao lembrar da nota publicada por representantes da ala mais à esquerda com assento na Executiva Nacional, criticando a condução política do partido assumida pela Articulação e reacendendo a disputa interna. Dutra quer levar o assunto para a reunião de segunda-feira da Executiva Nacional.
O deputado José Genoíno (PT-SP) considera precipitada qualquer discussão sobre o impacto político das denúncias dentro do partido. ‘‘Agora só temos que ter cautela’’, observou. Genoíno lembrou que as denúncias se referem à única época em que o PT não era dirigido pela Articulação, entre 1993 e 95. ‘‘Na época, essa ala da esquerda que agora esperneia era maioria na direção’’, ressaltou.

mockup