'Crise começa na política do adesismo'
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de agosto de 2012
Loriane Comeli <br> Reportagem Local 
Londrina, a segunda maior cidade do Paraná, já foi destaque no cenário econômico nacional, mas, nos últimos anos, foram as crises políticas que ganharam espaço no noticiário do País. Não é para menos. Em 12 anos, dois prefeitos foram cassados e mais de uma dezena de vereadores foi presa ou responde por crimes como concussão, corrupção, peculato e lavagem de dinheiro.
Para o professor do departamento de filosofia da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Clodomiro Bannwart, tantas crises têm uma origem comum: a ''lógica do adesismo'', tese pela qual os partidos se juntam em torno de um nome com apelo popular e capacidade eleitoral sem levar em consideração posições ideológicas e efetivas propostas de governo. ''O adesismo é simplesmente aderir de forma interesseira a situações vantajosas. É uma tese que tento levantar. É um problema estrutural do sistema político'', defende.
Bannwart sustenta que a política - local e nacional - está repleta de exemplos de ''adesismo''. O caso mais próximo é a coligação de 14 partidos que planeja eleger Marcelo Belinati (PP) prefeito de Londrina. Um dos ''adesistas'' é o PSDB, adversário histórico do belinatismo. Nos últimos anos, os tucanos orbitaram em torno de Luiz Carlos Hauly e, anteriormente, do ex-prefeito Wilson Moreira. ''O PSDB sempre fez oposição e nunca conseguiu chegar à prefeitura. Então pensaram: Se a gente não consegue chegar pela via democrática, então a gente pode se unir a eles de outra forma, através de uma política de adesão'', analisa. A aliança entre os dois grupos começou em 2010 para a eleição de Beto Richa (PSDB) como governador. Tucanos e belinatistas subiram no mesmo palanque em torno do candidato mais competitivo.
''Este tipo de adesão é inflacionada antes da eleição e o eleito não vai ter que construir uma adesão dentro da Câmara, até porque não têm programa comum, ideologias comuns. A relação entre Executivo e Legislativo vira então moeda de troca; é um vínculo mercadológico e em algum momento se rompe'', comenta. ''Veja a situação da presidente Dilma, que tem que se preocupar mais em administrar a base do que a oposição.''
Voltando ao plano local, o analista diz que o adesismo também ocorreu nas eleições de 2008, quando PSDB e PP ainda estavam em lados opostos. Hauly e Belinati se enfrentaram no segundo turno. Barbosa, que mantinha desentendimento público com o tucano, apoiou Belinati, seu desafeto anterior. Com Belinati considerado inelegível, Hauly foi para o ''terceiro turno'' contra Barbosa, este apoiado pelo belinatismo. ''Barbosa começou com maioria na Câmara e terminou com dois vereadores fazendo a defesa dele no dia de sua cassação. Esses laços se rompem porque não há identidade de programas''. Para Bannwart, porém, o caso de Barbosa pode ter outros fatores, como a própria personalidade do pedetista.
Elve Cenci, também professor do departamento de filosofia da UEL, lembra que Barbosa até cedeu a Belinati, nomeando Agajan der Bedrossian para a Secretaria de Saúde e criando um grave atrito com a Associação Médica. Logo o vínculo foi rompido. Barbosa, diz Elve, também não soube manter a costura que fez com a sociedade civil nos primeiros meses de governo e sua postura populista e centralizadora impediram alianças duradouras na Câmara. ''Ele conseguiu isolamento na Câmara. Os vereadores que lhe davam apoio foram se alterando, o que demonstra uma relação não baseada exatamente na fidelidade e na identidade de propostas, mas na negociação.''
Quanto a Nedson Micheleti (PT), que elegeu-se em 2000 com alianças ideologicamente mais próximas, seu governo foi mais estável, pelo menos nos dois primeiros anos. Mas o petista precisou construir alianças adesistas com a Câmara após as eleições e logo começou a enfrentar desgaste, que se refletiu em altos índices de rejeição. Para Bannwart, a crise estourou do outro lado da praça do Centro Cívico. ''Tanto é verdade que os vereadores foram acusados de crimes graves e recentemente condenados.'' Elve Cenci acredita que Nedson ''acabou passando meio incólume pela crise porque levou vários vereadores para perto de si através de uma política de toma lá dá cá''. ''Os vereadores indicavam secretários no governo o que deu bastante sustentação à gestão.''
Para enfrentar o adesismo, os professores sugerem atuação mais institucional dos partidos, de acordo com o ''novo formato de Estado criado a partir da Constituição Federal de 1988'', diz Bannwart. ''Os partidos ainda agem na lógica do populismo da década de 60. A imagem do candidato está sempre em primeiro plano e o único objetivo é vencer as eleições. E deveriam se atualizar, se comprometendo com uma forma democrática de política e fazendo um grande programa de propostas.'' Cenci concorda. ''O prefeito precisaria fazer uma ampla costura com a sociedade civil e pontuar um projeto para Londrina para negociar com os vereadores em cima do conteúdo programático e não na política pequena.''


