Enfrentando três Comissões Especiais de Inquérito (CEI) e a possibilidade de abertura de duas Comissões Processantes (CP), na Câmara, além de três ações por improbidade administrativa e uma possível investigação por supostos crimes de corrupção e desvio de dinheiro, o prefeito Barbosa Neto (PDT) vive tempos difíceis. Analistas políticos acham que tanto a governabilidade quanto a estabilidade do governo foram afetadas, principalmente, em razão da crise da Saúde.
Há um mês, a operação Antissepsia do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) tornou públicas supostas práticas de agentes públicos e particulares que implicavam o desvio do dinheiro justamente destinado à Saúde, um dos principais gargalos da administração de Barbosa.
''Quando você se coloca no lugar da pessoa que precisa de atendimento médico e não o obtém, ou só consegue depois de muita espera, você percebe que desviar dinheiro da saúde é uma crueldade; é um atentado contra a vida das pessoas'', analisa o professor da Universidade Estadual de Londrina, Elve Miguel Cenci, doutor em filosofia. ''Isso afeta a governabilidade e a credibilidade.''
Outro professor de filosofia da UEL, Clodomiro Bannwart, acredita que se os desvios não fossem na Saúde, seria mais fácil de amenizar a crise. ''Com a Saúde é diferente porque a inviabilização do atendimento ou a sua precariedade pode trazer consequências irreparáveis.''
Para o presidente da Câmara, Gerson Araújo (PSDB), o atual momento ''é a pior crise da administração do prefeito e ainda não chegou ao final''. ''A Saúde não poderia estar do jeito que está.''
A crise já pode ter afetado a relação entre Câmara e Prefeitura. A votação da semana passada - em que os vereadores derrubaram parecer da CEI da Guarda Municipal que isentava Barbosa de responsabilidade - demonstrou, para Cenci, que Barbosa já não está tão firme. ''Os vereadores estão entendendo o recado das últimas eleições: quem não agir conforme a população está pedindo não terá chance de se reeleger'', afirma.
Gerson Araújo, cuja eleição para presidente do Legislativo teve votos de vereadores da base de sustentação de Barbosa, esclarece que a mudança de posição foi necessária. ''Eu disse que teria atuação independente. O nosso grupo percebeu que havia falhas importantes e resolveu se posicionar.''
A instabilidade na administração de Barbosa, comenta o vereador, é um fato concreto. ''A crise afeta a governabilidade em todos os sentidos. Eu me coloco no lugar do prefeito e imagino que ele deve estar pensando nisso o tempo todo; o programa de governo, as decisões administrativas ficam comprometidas.''
O professor Bannwart entende que um dos efeitos nefastos da crise é Londrina aparecer, mais uma vez, em rede nacional envolvida em um escândalo de corrupção. ''A questão é saber se o prefeito tem condições, na atual conjuntura, de tomar decisões para romper com essa situação trágica que mais uma vez macula a imagem da política londrinense e recuperar a operacionalidade da sua administração.''
Centralizador
A forma centralizadora de Barbosa governar, na opinião de Elve Cenci, deixa sua administração mais suscetível às críticas e à pressão externa exercida sobre os vereadores. ''Diferentemente do governo do ex-prefeito Nedson Micheleti (que antecedeu Barbosa), em que havia vereadores ocupando cargos do primeiro escalão, Barbosa é centralizador e tem um certo distanciamento da Câmara.''
O professor também aponta certa inabilidade política do prefeito, ''que conseguiu fazer de seu líder, Joel Garcia, seu inimigo número um''. Quanto ao atual líder, o professor diz que ''Roberto Fu é um líder que se equilibra, meio desconfiado, meio distante, cauteloso''.
Bannwart analisa que a crise deixou o prefeito com uma margem de manobra reduzida, já que a ''reconstrução da credibilidade'' para uma possível disputa da reeleição não se dá tão rapidamente. ''As eleições municipais serão já no próximo ano, portanto, daqui a 15 meses.''
Além do pouco tempo, Elve Cenci explica que a agenda positiva tende a ser relegada a segundo plano. ''Mesmo que as coisas boas aconteçam, acabam sendo encobertas pelo noticiário sobre o escândalo.'' A Câmara também não deve ajudar muito. ''O prefeito fica numa situação delicada porque deve mostrar serviço para uma possível candidatura à reeleição, mas pode não ter essa resposta da Câmara, que vai gastar tempo fazendo as investigações e vai analisar com mais cautela as proposições do Executivo'', acrescenta Cenci.
'Saúde vai bem'
Durante a semana, o prefeito Barbosa Neto afirmou nas coletivas que a crise na saúde não afeta a credibilidade de sua administração perante a opinião pública. ''Eu espero que haja apuração de todos esses fatos'', disse em relação às denúncias que estão sendo apuradas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), mas garantiu que ''a credibilidade do prefeito não foi abalada''.
E na última coletiva, esta semana, ao ser indagado como pretende administrar as demandas na área da saúde daqui para frente no município, ele respondeu que ''a saúde no município está indo bem'' e que estão sendo tomadas algumas medidas para que o setor fique bem próximo daquilo que ele considera ideal.

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