Crescimento e desemprego são desafios
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sexta-feira, 01 de janeiro de 1999
Cláudia Carneiro, Isabel Braga e Nelson Breve Agência Estado 
O presidente Fernando Henrique Cardoso inicia hoje seu segundo mandato com o histórico de quem conseguiu estabilizar a moeda, controlar uma inflação perversa e instituir um novo perfil econômico para o Brasil. Mas arrasta consigo uma dívida social profunda que terá de resgatar nos próximos quatros anos, retomando o crescimento econômico do País e, acima de tudo, reduzindo o desemprego que ele próprio escolhe como o principal desafio do seu segundo governo.
A tarefa mais imediata do governo será concluir a votação do ajuste fiscal no Congresso para credenciar-se ao apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI) e recuperar sua credibilidade no exterior, motivo de orgulho do presidente até a chegada da crise financeira mundial que tornou o País vulnerável. As brechas do modelo econômico adotado pela equipe de Fernando Henrique e a desordem no mercado internacional detonaram as reservas brasileiras, que chegaram à soma recorde US$ 74,6 bilhões em abril de 1998, para fechar o ano em US$ 38 bilhões de divisas, voltando ao patamar de 1994.
Para preservar a herança positiva e reduzir os pontos negativos do seu primeiro mandato, o presidente Fernando Henrique terá de consertar desvios no projeto de estabilidade econômica. O governo está obrigado a gerar poupança interna, como meio mais saudável de diminuir a dependência do capital externo, e estabilizar a dívida pública em 40% do PIB. E não apenas acabar com o déficit público, mas criar um superavit para que o País possa ter investimentos na área social e maior oferta de empregos.
Desemprego Compromisso número um da campanha da reeleição, o combate ao desemprego exigirá do presidente muita determinação e criatividade. A taxa de desemprego ultrapassou o índice de 8% no último ano do primeiro mandato de Fernando Henrique e está muito longe de ser reduzida aos índices do início do governo. As previsões são ainda mais pessimistas e apontam para uma taxa de 11% no primeiro trimestre.
Retomar o crescimento passou a ser um desafio cada vez mais penoso para o governo, que entrou na campanha da reeleição com uma perspectativa de taxa de crescimento de pelo menos 3% do PIB para 1999, mas assume agora com uma previsão de retração da economia inédita no governo de Fernando Henrique. O Ministério da Fazenda estima uma queda de 0,1% do PIB.
A maré de investimentos estrangeiros no País foi muito favorável ao Plano Real durante o primeiro mandato, alcançando US$ 9,9 bilhões em 1996, US$ 17 bilhões em 1997 e US$ 21 bilhões em 1998. A expectativa do governo é de pelo menos preservar o interesse externo no País, nos próximos quatro anos, embora a maior parte das privatizações já tenha sido concluída. Se conseguir essa façanha, o presidente estará pelo menos reduzindo suas dores de cabeça.
As absurdas taxas de juros praticadas no Plano Real e o aumento da dívida pública estão na extensa lista de problemas que terão de ser resolvidos por Fernando Henrique no segundo mandato. O presidente carrega com sua reeleição uma dívida pública que cresceu desenfreadamente desde a estréia do real em 1994. Naquela época, o endividamento do Estado era de R$ 61 bilhões. Em julho de 1998, já alcançava R$ 304 bilhões. A conta dos juros é amarga. Para cada R$ 8,00 do déficit público, R$ 7,00 se devem ao pagamento de juros àqueles que emprestam ao Estado. E o governo só prevê baixar as taxas de juros - principal alvo de reclamação do setor produtivo - gradualmente, até 2001. Âncoras do Plano Real, as políticas de juros e do câmbio, embora condenadas por vários setores da sociedade, garantiram quatro anos de estabilidade monetária e uma inflação controlada que baixou de uma taxa anual de 2500% em 1993 para menos de 3% em setembro de 1998. Uma taxa com a qual o Brasil não convivia há quase meio século.
Avanços O presidente encerrou sua primeira gestão com a frustração de ter de recorrer ao dinheiro do FMI. Mas teve outros saldos positivos a apresentar, além do controle da inflação. Promoveu o saneamento das instituições financeiras federais e estatais, sob o peso amargo do Proer, dando-lhes caráter mais técnico e menos político e reduzindo o desperdício de dinheiro público.
Iniciou o enxugamento do Estado, retirando-se de setores estratégicos como o das telecomunicações, conseguiu estabelecer mudanças para a diminuição dos gastos públicos com a aprovação das reformas da Previdência e administrativa.
Educação O maior avanço no setor social que deixou para si mesmo foi na Educação. Em seu governo, o presidente conseguiu diminuir o índice de evasão escolar, aumentar o número de matrículas para as crianças e estruturar o sistema de avaliação de ensino. Sua tarefa agora será melhorar a qualidade do ensino.
Na Saúde os resultados foram mais tímidos e o presidente terá de mostrar seu interesse para atender às demandas sociais. O grande salto do governo foi a realização de obras de infra-estrutura que permitirão uma integração bem maior entre as regiões brasileiras e os países vizinhos.


