Cresce voz dos radicais da Igreja
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sábado, 22 de fevereiro de 2003
Roldão Arruda<br>Agência Estado 
São Paulo O prestígio da Igreja Católica no atual governo está em alta. Mais precisamente, o prestígio da ala progressista, seguidora da Teologia da Libertação, segundo a qual o Reino de Deus começa aqui mesmo na Terra e pertence, preferencialmente, aos mais pobres.
Um dos principais pregadores dessa linha teológica no País, o irmão dominicano e escritor Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, está instalado no quarto andar do Palácio do Planalto, exercendo a função de consultor do presidente da República. Para o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CNDES), criado neste mês, o governo convidou o bispo d. Tomás Balduíno, também dominicano, que há 35 anos se dedica a defender de maneira radical os interesses de índios, posseiros e sem-terra.
Na lista de integrantes do Conselho de Segurança Alimentar (Consea) figura o nome do bispo de Duque de Caxias, Dom Mauro Morelli, dono de uma irrefreável vocação para questões sociais e políticas. Ele costuma justificar-se dizendo que o Cristo de sua fé ''é o Cristo que veio para defender a vida''.
A presença desses três representantes da Teologia da Libertação em organismos do governo já seria suficiente para indicar seu prestígio. Mas é possível que seja apenas o começo. Há pouco mais de uma semana, quando o ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, apresentou uma lista com os nomes de 20 novos superintendentes regionais do Incra, chamou a atenção o fato de três deles de Rondônia, Roraima e Piauí terem vindo de órgãos de direção da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que é presidida por Dom Tomás.
Em todos os outros lugares do País onde houve renovação dos quadros do Incra a CPT também foi consultada. Em 25 anos de existência, a entidade, que foi o berço do Movimento dos Sem-Terra (MST), nunca havia experimentado tanta deferência. Mas seus dirigentes querem mais: ainda ontem tentavam nomear outras pessoas de seus quadros para as nove vagas que continuavam abertas em superintendências regionais.
Um dos que já foram indicados por Rossetto é o padre Ladislau João da Silva, filho de pequenos agricultores, filiado ao PT do Piauí e candidato a deputado estadual na eleição passada. Obteve 11.900 votos insuficientes para elegê-lo, mas o bastante para aumentar seu cacife no partido e nos movimentos sociais dos quais participa.
O padre, que no passado foi ameaçado de morte por seu envolvimento com a causa dos sem-terra, proclama aos quatro ventos seu entusiasmo pela Teologia da Libertação: ''Ninguém pode se dar ao luxo de ficar dizendo ao povo que só depois da morte é que se ganha o céu. O Reino de Deus começa aqui, com justiça social, redistribuição de renda, reforma agrária, habitação, alfabetização.''
O presidente Lula já teria dito a amigos e assessores que considera positiva a influência dessa corrente em seu governo. Além de Frei Betto, Lula costuma ouvir o teólogo Leonardo Boff ex-frade franciscano, apontado como um dos pais da Teologia da Libertação, ao lado do padre peruano Gustavo Gutiérrez.
Não é só da intelligentsia e da liderança progressista, porém, que o governo deve se aproximar. Neste momento Frei Betto articula o apoio das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) para o Fome Zero. De acordo com o Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris), existem quase 70 mil dessas comunidades pelo País. ''Constituem um movimento social bem organizado e com enorme penetração nas comunidades mais pobres'', define o frade.


