Brasília - Recebido com um ''seja bem-vindo, ministro'', quando chegou atrasado ao jogo de futebol promovido pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), na semana passada, o senador Amir Lando (PMDB-RO) corrigiu imediatamente: ''Ministro, não; ex-ministro. Estou demitido desde outubro'', disse diante dos dois times de deputados e senadores.
Ao observar a silhueta bem mais delgada de Lando, que perdeu 12 quilos nos últimos meses, um dos jogadores em campo concluiu que, no ritmo em que vão a dieta e a reforma, cresce a cada dia o time de zumbis do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Esplanada dos Ministérios: ministros que já estão demitidos no papel, mas ainda ocupam seus cargos esperando apenas pelo anúncio oficial do presidente Lula.
A fritura dos ministros provocou um imediato efeito colateral: o natural desinteresse do acompanhamento dos problemas do governo. As situações provocadas por conta disso são impressionantes. Era 19h de quarta-feira quando o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, comemorava seu aniversário no terceiro andar do Palácio do Planalto. Arthur Virgílio já havia coletado as assinaturas necessárias para abrir duas CPIs. Além disso, naquele mesmo dia, o governo teve de ceder na votação da proposta de emenda constitucional da Previdência para evitar novo fracasso. Mas Dirceu e os convidados não sabiam de nada.
Uma das CPIs criadas no Senado tem o objetivo de investigar as privatizações feitas entre 1990 e 2004. A outra pretende apurar o envolvimento de Waldomiro Diniz, ex-subchefe de Assuntos Parlamentares da Casa Civil, em esquema de corrupção.
Diante do sofrimento e da humilhação do time de ministros que já tiveram a demissão anunciada pelo técnico e nunca recebem o cartão vermelho, até os petistas que apóiam o governo concordam com o líder da oposição. ''Como dizia Maquiavel, se é para matar, mate logo'', protesta o deputado Walter Pinheiro (PT-BA). Pinheiro defende a tese de que dar aviso prévio público a um ministro de Estado é o mesmo que decretar sua sentença de morte e colocá-lo em paredão, sujeito a todo tipo de tiroteio.
Talvez por isso, o ministro Humberto Costa (Saúde) tenha deixado o gabinete presidencial cabisbaixo e deprimido na manhã de sexta-feira (11 de março). Contrariando todas as suas expectativas, o presidente Lula nem tocou no assunto de sua demissão. ''Essa exposição pública, como têm feito com o Humberto, acaba com o ministro, mas também prejudica muito a administração e o governo como um todo porque cria um ambiente de instabilidade política'', critica o deputado petista, que tem defendido a permanência de Costa na Saúde.
Excluído de reuniões palacianas de lá para cá, inclusive as convocadas pelo presidente para discutir a reforma da equipe, Aldo Rebelo já pediu a Lula por duas vezes que o demitisse logo, para acabar com o desconforto. Embora mantenha a disciplina típica de um comunista, ele perdeu a paciência com as críticas de petistas a seu desempenho na articulação política. ''Quererem o meu cargo é natural da política, mas desqualificar meu trabalho, isto eu não admito'', desabafou o ministro na ocasião.
Escalado para compor o time dos reservas que poderão ceder lugar a um aliado, o ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini (PT), viveu momentos de tensão na semana passada, quando foi vaiado por sindicalistas na Comissão da Reforma Sindical da Câmara. Sem condições políticas de conduzir debate tão polêmico, Berzoini mal pôde falar na comissão, mas não se queixou. ''Procuro realizar meu trabalho a cada dia, e fico no ministério até quando o presidente quiser. Entendo que é um desafio para ele a montagem de sua equipe.''

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