Brasília - Às vésperas da reforma ministerial, é intensa a operação de bastidor em curso na tentativa de encaixar a ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy na equipe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A pedido de Lula, o ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, sondou o presidente do PP, deputado Nélio Dias (RN), e o líder do partido na Câmara, Mário Negromonte (BA), sobre a possibilidade de um acordo para a legenda entregar o Ministério das Cidades. Em troca, ofereceu Agricultura. Não foi só: disse que o governo poderia compensar o PP com estatais à escolha da sigla. Tudo com o objetivo de abrir vaga para Marta em Cidades.
O problema é que o PP recusou a oferta, apresentada no dia 25 de fevereiro. Além disso, prometeu ir para a oposição, caso seja obrigado a ceder a cobiçada cadeira. ''O PT não pode pôr a faca no pescoço do presidente Lula para ele voltar atrás em acordos nos quais já deu sua palavra'', reclama Negromonte, expondo com todas as letras o racha na base aliada. ''O Ministério das Cidades é nosso!''
Dona de temperamento explosivo e sem a mínima paciência para o que chama de ''conversa mole'', Marta foi taxativa: pediu a seu grupo que submergisse no burburinho sobre a reforma ministerial, prevista para ocorrer após a convenção do PMDB, no dia 11. Antes mesmo de saber da dura conversa com os dirigentes do PP, a ex-prefeita recebeu telefonema de Tarso, um petista que, no mosaico ideológico do partido, está no campo oposto ao dela na luta interna pelo poder. O ministro tentou dissipar rumores de que Lula não a queria no primeiro escalão.
Interlocutores acostumados a decifrar os humores do presidente garantem: o que ele não quer, mesmo, é parecer pressionado pelo PT. Foi por isso que a cúpula do partido, enquadrada pelo Palácio do Planalto, mudou de estratégia. Num recuo tático, guardou a lista das indicações que entregará a Lula, embora todos saibam que Marta está no topo, e decidiu trabalhar em silêncio.
''Queremos sair desse fogo cruzado'', afirma o deputado Jilmar Tatto (SP), ''martista'' de carteirinha e terceiro vice-presidente do PT. ''Para que ficar nos desgastando assim?'' Na prática, o grupo de Marta acumula forças dentro do PT e disputa espaço com outras facções, que, numa referência ao governo de coalizão, defendem também uma ''coalizão interna'' para o preenchimento de cargos na Esplanada.
Futuro - Marta já é pré-candidata à eleição para a Prefeitura de São Paulo em 2008 e alguns de seus discípulos articulam até aliança com o PP - o mesmo que disputa Cidades com o PT. Mas a ex-prefeita sonha com vôo mais alto: está de olho na sucessão de Lula em 2010. Por enquanto, ela não pretende abandonar os planos para o ano que vem, mesmo se virar ministra. Tem, em sua empreitada, o apoio do ex-chefe da Casa Civil José Dirceu, deputado cassado após o escândalo do mensalão.
A superexposição de Marta contraria Lula, que ainda não escolheu quem vai ungir como herdeiro de seu espólio e, é claro, não está nem um pouco interessado em abrir a temporada da sua sucessão com tanta antecedência. ''O PT deu os primeiros passos do balé de mau gosto'', critica o deputado Ciro Gomes (PSB-CE), outro pré-candidato à cadeira de Lula, ao comentar a insistência dos petistas em dar um ''chega para lá'' nos aliados. No diagnóstico de Ciro, ex-ministro da Integração Nacional, as ''feridas'' na base governista não só não cicatrizaram desde o confronto pela presidência da Câmara no mês passado - quando Arlindo Chinaglia (PT-SP) derrotou Aldo Rebelo (PC do B-SP) - como são cada vez maiores.
Com língua afiada, Ciro insiste em que a autonomia de Lula para escolher a equipe não deve ser ''nem remotamente'' cerceada pelos partidos. ''Não estamos no parlamentarismo. O sistema é presidencialista'', observa, em tom irônico.
Bastidores - Enquanto os aliados dão cotoveladas públicas no ringue político, os articuladores da candidatura de Marta ao Ministério das Cidades atuam nos bastidores. No dia 28, por exemplo, o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) foi flagrado em animada conversa com Paulo Maluf (PP-SP), para sondar os seus interesses. De arquiinimigo no passado, Maluf é hoje muito próximo de integrantes do grupo de Marta. Ele garante, no entanto, não endossar qualquer plano para ''rifar'' Márcio Fortes, titular de Cidades. ''Se o presidente Lula me consultar, eu direi que deve manter Fortes'', diz Maluf.
Indiferente ao imbróglio, um dirigente do PT usou a reunião da Executiva, para defender o ultimato a Lula. ''Vamos dizer ao presidente o seguinte: companheiro Lula, é preciso pôr em Cidades, Educação, Saúde e Transportes quadros de grande visibilidade, porque é de dentro desses ministérios que vai sair o seu sucessor'', bradou o petista, de uma corrente de esquerda. Todos se entreolharam. Ninguém, porém, mostrou muito entusiasmo com a proposta.

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