Brasília - Com cinco meses de atraso e sem grandes esperanças, integrantes da CPI dos Correios finalmente embarcaram ontem rumo aos Estados Unidos atrás das contas do publicitário Duda Mendonça no exterior. Oficialmente, a viagem servirá para que os parlamentares tentem obter junto às autoridades americanas os dados das movimentações bancárias do marqueteiro com o ''valerioduto''. Na prática, o périplo tem objetivos mais políticos do que técnicos.
Reservadamente, a cúpula da comissão admite que, mesmo na difícil hipótese de conseguir os extratos, as investigações não avançarão substancialmente. Assim, a viagem terá dupla função. A primeira é pressionar o Ministério Público e a Polícia Federal a não abandonarem o caso em razão do barulho provocado pelos encontros com os americanos. A segunda - e mais importante - é transmitir a sensação à opinião pública de que a CPI também não abdicou dessa linha de investigação.
Na viagem desta semana, o relator da CPI, Osmar Serraglio (PMDB-PR), e os deputados Eduardo Paes (PSDB-RJ) e Maurício Rands (PT-PE) pedirão os dados de Duda ao Departamento de Justiça, aos promotores Distritais de Nova York e ao Fincen (Financial Crimes Enforcement Network), espécie de Coaf do governo americano.
As informações buscadas pela CPI já estão em poder do Ministério Público e da Polícia Federal. São os extratos da Dusseldorf, conta criada por Duda no BankBoston de Miami para receber os R$ 10,5 milhões do ''valerioduto'' - pagamento pela campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2002. Até agora, o governo americano tem se negado a permitir o acesso da CPI aos dados.
A CPI sabe que as investigações sobre a Dusseldorf não devem avançar porque, na verdade, já conhecem extra-oficialmente os dados que vão pedir. Os extratos da conta de Duda em poder da Inteligência do Ministério Público mostram que a Dusseldorf era uma espécie de ''conta-ônibus'', que intermediava a passagens de recursos.
Nas duas pontas dos extratos dessa conta, tanto na entrada quanto na saída de recursos, estão operações com doleiros. Ou seja: para saber de onde veio o dinheiro e quais os reais destinatários será necessário quebrar mais sigilos, em países como a Suíça, a Alemanha e os Estados Unidos, além de paraísos fiscais. Segundo os investigadores, é um processo que demandará anos, como no caso Maluf.
A Polícia Federal já pediu a quebra de algumas dessas contas que receberam recursos da Dusseldorf, mas o Ministério Público ainda não deu parecer sobre o assunto. Para esclarecer a origem dos recursos que abasteceram a Dusseldorf a pedido de Marcos Valério, a CPI precisaria do depoimento dos doleiros que injetaram o dinheiro na conta de Duda. Somente eles poderiam explicar como Valério fez a compensação financeira pelos depósitos operados no exterior.
A saída de dinheiro da Dusseldorf, que registra transferências para contas não identificadas no Bankboston de Miami (possivelmente do próprio publicitário), também revela depósitos para a Suíça, para a Alemanha e para três empresas ligadas a doleiros. Duas delas - StrongBox e Raspberry Company - têm a mesma sede da Dusseldorf (Bahamas) e conta no Bankboston. Nesse caso, também é necessário descobrir quais doleiros que as operavam e pedir explicações a eles.

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