Brasília - As descobertas feitas até agora pela CPI dos Correios são, na definição de deputados e senadores, apenas a ponta do iceberg de um esquema milionário de tráfico de influência e arrecadação de recursos montado pelo empresário Marcos Valério Fernandes de Souza e pelo ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares. ''Ele (Marcos Valério) é o núcleo de tudo. Mas não sei onde tudo isso vai parar'', resume o relator da CPI, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR).
Para tentar desvendar o esquema, os integrantes da CPI decidiram centrar as investigações nas cerca de 150 contas bancárias das 18 empresas do publicitário. ''Não sabemos sequer a real movimentação financeira de Marcos Valério e suas empresas'', observa Serraglio. Em sua avaliação, outra ponta importante da investigação é o processo feito pelo juiz Jorge Macedo Costa, da 4 Vara da Justiça Federal de Minas Gerais, com os nomes de 120 beneficiários de saques feitos de contas no Banco Rural. Como envolve parlamentares, o processo está no Supremo Tribunal Federal (STF) e deverá chegar à CPI esta semana.
''Acho que esse material pode surpreender'', aposta o relator. Ele adianta, porém, que não caberá à CPI dos Correios analisar o eventual envolvimento de parlamentares no esquema montado por Valério. Esses casos serão enviados para análise da CPI do Mensalão. ''A CPI dos Correios vai perder o enfoque do mensalão. Mas não temos mais dúvidas da relação entre parlamentares e Marcos Valério'', afirma Serraglio.
Preocupados em tabular os dados com as quebras de sigilo bancário, fiscal e telefônico de Marcos Valério, os integrantes dos partidos de oposição na CPI estão convictos de que o esquema montado pelo publicitário é muito maior do que se apurou até agora.
''Com certeza vai aparecer mais gente do que os supostos beneficiários dos R$ 39 milhões que Delúbio admitiu ter movimentado com Valério. Tem gente que acha que chega R$ 500 milhões'', reforça o deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR), sub-relator da comissão. ''Tem muita coisa ainda por vir. A CPI avançou, mas falta uma sistematização dos trabalhos'', emenda o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP), integrante da comissão.
Os parlamentares do PT se dizem surpreendidos com o esquema montado por Marcos Valério. ''A impressão que temos é que a cada dia vão aparecer mais fatos novos. É difícil prever se as coisas vão estagnar'', diz o deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP), que integra a CPI dos Correios. Os petistas argumentam, no entanto, que o esquema montado por Valério não é inovador e é anterior a 2003, antes do governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
''Existia um modelo anterior a este governo que envolve muitos partidos, inclusive os de oposição'', atesta o deputado Carlos Abicalil (PT-MT), que também integra a CPI dos Correios. Ele aposta que há mais empresários, além de Marcos Valério, envolvidos nesse tipo de operação. ''Pode não ser uma prática apenas das empresas do Marcos Valério'', diz o petista. ''A arrecadação de fundos comandada por Marcos Valério foi para diversas forças políticas e não só para o PT'', lembra Cardozo.
Para o senador Sibá Machado (PT-AC), a CPI dos Correios já avançou bastante nas investigações. ''A CPI já descobriu caixa 2 de campanha, o império de Marcos Valério e um grande número de pessoas do PT envolvidas com tudo isso'', diz o senador. ''Não pode ter nada mais surpreendente. Se há algo maior do que isso, pelo amor de Deus, é melhor fechar o Brasil'', conclui.

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