CPI retoma casos de Alemão e Dezinho
Da Redação
O espólio milionário de Josef Edgard Gardeman, o Alemão, e José Luiz Vanderleis, o Dezinho, dois empresários brasileiros acusados de terem comandado o crime organizado na fronteira Brasil-Paraguai até o início dos anos 90, começa a ser rastreado e investigado pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico. A história dos dois empresários é envolvida em mistérios. Gardeman, o Alemão, morreu em 89, metralhado na cozinha de sua fazenda em Salto del Guayrá, na fronteira do Paraguai. Vanderlei, o Dezinho, desapareceu quatro anos depois num episódio jamais esclarecido.
No auge da atividade, os dois eram conhecidos como os reis da fronteira, acusados de contrabando, roubo de caminhões e cargas, tráfico de armas e drogas. Passavam por empresários bem sucedidos, frequentavam colunas sociais e tinham trânsito livre nos altos escalões do governo paraguaio. Mas, pouco antes de desaparecerem, já eram investigados e procurados pela Interpol, pelo FBI o serviço secreto dos Estados Unidos e pelas polícias de vários Estados brasileiros.
Alemão e Dezinho movimentavam fortunas e comandavam milhares de homens. Agora, a CPI quer saber o que foi feito do espólio dos dois e para onde foram os homens que agiam sob o seu comando. Este espólio incluiria, além de uma fortuna em bens materiais, o comando de operações de receptação de cargas roubadas, contrabando, tráfico de drogas e armas e lavagem de dinheiro.
Para o deputado Robson Tuma (PFL-SP), parte das empresas, da organização, do dinheiro e dos homens que trabalhavam para Alemão e Dezinho passaram a integrar os grupos do crime organizado que a CPI investiga hoje em pelo menos 14 Estados brasileiros. As conexões iniciais destes grupos estão na origem de muitas das quadrilhas atuais, revela. Segundo ele, nomes que começam a ser investigados agora pela CPI tiveram uma relação estreita com os esquemas de Alemão e Dezinho no passado.
Tuma afirma que o desaparecimento de Alemão e Dezinho, e o que aconteceu depois com as quadrilhas comandadas por eles, não foi um caso isolado. No final dos anos 80 e início dos 90, o poder financeiro do narcotráfico cresceu tanto, que brigas internas esfacelaram as grandes quadrilhas organizadas, como as de Alemão e Dezinho, avalia. Isso aconteceu, segundo ele, porque nesta época o narcotráfico começou a ficar tão forte e a movimentar tanto dinheiro que grupos ligados ao contrabando, roubo de automóveis e outros delitos, também decidiram trabalhar com as drogas. Então a guerra pelo controle se tornou inevitável. E muito violenta, comenta.
O deputado Padre Roque Zimerman (PT-PR), que também integra a CPI do Narcotráfico, lembra que, no final dos anos 80, grandes chefes do crime organizado foram mortos pelos próprios companheiros ou tiveram que desaparecer para não sucumbir à esta guerra pelo poder. O mesmo fenômeno foi registrado em cartéis da Colômbia, na Bolívia e no resto da América Latina. Na Colômbia, por exemplo, a violência do Cartel de Medelin foi superada pelo modelo do Cartel de Cali. O Cartel de Cali dividiu as áreas de atuação dos diferentes grupos. Sobrou espaço para todo mundo e as guerras internas foram drasticamente reduzida, explica.
De acordo com Tuma, esta partilha das funções também aconteceu no Brasil. Foi uma saída para a própria sobrevivência das quadrilhas, acredita. Assim, alguns grupos se especializaram no tráfico e distribuição da droga, outros no roubo de cargas e caminhões, outros na lavagem de dinheiro, no contrabando e assim por diante. Mas um não vive sem o outro. Por isso nós temos um Fernandinho Beira-Mar, que cuida das drogas, tão perto de um Willian Sozza, que cuida de cargas roubadas. E todos eles dependem de doleiros, financistas e empresários que os ajudam a lavar o dinheiro e montar e administrar empresas onde giram o dinheiro lavado, esclarece.
Tuma diz que a CPI não acredita em uma quadrilha única e organizada agindo em todo o território nacional. O que existe é uma relação estreita e uma ajuda recíproca entre as diferentes quadrilhas. Por isso é importante investigarmos um pouco atrás, ali onde tudo começou, no tempo destes reis da fronteira. (leia nesta página o texto Teoria do Funil).
QUEDA DE STROESSNER: O COMEÇO DO FIM
A verdadeira relação entre Alemão e Dezinho nunca foi esclarecida. Para alguns, eram inimigos mortais, que viviam na mesma cidade Salto del Guairá e lutavam pelo comando do crime organizado no mesmo território, a fronteira Brasil-Paraguai. Para outros, eram companheiros que dividiam o domínio do território e traçavam ações em conjunto para despistar a polícia e se proteger de eventuais inimigos.
Publicamente, os dois assumiam um perfil semelhante. Vestiam-se bem, falavam fluentemente, frequentavam os altos círculos sociais e tinham contatos importantes na cúpula do governo paraguaio. Passavam por empresários poderosos e bem sucedidos e negaram sempre qualquer tipo de envolvimento com o crime organizado.
O delegado Paulo Lacerda, do Rio de Janeiro, um dos maiores especialistas da Polícia Federal no combate à lavagem de dinheiro do crime organizado, conhece bem este perfil. Durante anos eu persegui algumas pessoas que agiam e continuam agindo exatamente desta forma. Todos os delitos são cometidos do lado de lá da fronteira. No território brasileiro, eles agem como grandes empresários, dentro da lei e acima de qualquer suspeita, afirma.
Alemão e Dezinho se mudaram para o Paraguai na mesma época, início dos anos 70, mas nunca perderam os laços com o Brasil. Mesmo quando já pesavam sob suas costas inúmeras acusações e mandados de prisão, vieram diversas vezes ao Brasil utilizando nomes e documentos falsos. Mantinham fortes laços de amizade e negócios em Umuarama onde até hoje vive a primeira esposa de Dezinho Londrina e Curitiba.
O reinado de Alemão e Dezinho foi seriamente abalado em 1989 com o fim da ditadura do general Stroessner de quem, diziam, Alemão era amigo pessoal. Um mês depois da queda do ditador, Alemão seria metralhado em sua fazenda em Salto del Guayrá. Três anos depois, informado que o Exército paraguaio tinha ordem de prisão contra ele, sob acusação de receptação de carros roubados, Dezinho fugiu às pressas para o Brasil com nome e documentos falsos e desapareceu em uma de suas fazendas nas redondezas de Cuiabá (MT).
METRALHADO NA COZINHA DA FAZENDA
Os negócios de Alemão, segundo a Polícia brasileira, eram muitos e com ramificações em diversos Estados brasileiros, onde ele comandaria conexões de roubo de automóveis, caminhões e cargas. Assim como Dezinho, Alemão também seria especializado na receptação de cargas de café e soja roubados. As cargas eram entregues a ele, legalizadas em Assunção, a capital do Paraguai, e dali voltavam para o Brasil como produtos paraguaios para serem exportados através do Porto de Paranaguá.
O império de Alemão nunca foi inteiramente dimensionado. Incluiria fazendas, empresas, uma extensa frota de veículos e caminhões. Círculos próximos a ele afirmam que seu império atravessava sérios problemas financeiros. A principal causa seria a apreensão de muitos de seus caminhões com cargas roubadas em território brasileiro e o fracasso de uma empreendimento milionário que ele tentou fazer no lado paraguaio da fronteira. Alí, ele pretendia erguer uma nova cidade, que se chamaria Parque Itaipu. Demarcou a área, investiu em infra-estrutura mas vendeu poucos lotes.
Em dezembro de 88, Alemão foi preso numa barreira policial em Cianorte, por porte ilegal de arma. Ficou alguns dias presos em Umuarama, onde era acusado de receptação de motores de pôpa e carros roubados. Mas a prisão foi relaxada e ele voltou para sua fortaleza em Salto del Guayrá.
Três meses depois, em fevereiro de 89, um homem que acabara de ser contratado para trabalhar em seu grupo sacou de uma metralhadora enquanto ele almoçava com a família na cozinha da fortaleza e o matou. Junto com ele, morreu sua esposa, Gersina de Brito Maicuna, que também era conhecida como Claudia. A filha de 6 anos, que também almoçava com os pais conseguiu escapar.
Três dias depois, o assassino de Alemão Caludinei Natel Teixeira foi morto pela polícia paraguaia em um brejo na periferia de Salto del Gayará. As razões do crime nunca foram esclarecidas.
O IMPÉRIO DE DEZINHO
Com a morte de Alemão, Dezinho se transformou no único rei da fronteira Brasil-Paraguai. De sua luxuosa fortaleza, instalada na Fazenda Mil Alqueires, ele administrava um império. Sete fazendas, uma empreiteira, uma transportadora e empresas de importação e exportação de cereais e compra e venda de automóveis, no Paraguai; fazendas, portos de areia, pedreiras e um estaleiro, em Mato Grosso, Guaíra e Foz do Iguaçu; garimpos de estanho no Amapá; um frigorífico e uma fundição de estanho em Umuarama, sua terra natal.
Pouco antes de desaparecer, ele anunciou que começava a abrir uma linha fluvial que ia até a região de Piracicaba, para explorar a navegação nos rios Paraná e Tietê. Sua frota de veículos incluía 27 caminhões, cinco registrados no lado paraguaio da fronteira e 22 no lado brasileiro; e pelo menos 30 automóveis e utilitários, entre eles um automóvel Mercedes-Benz, uma caminhonete Mitsubishi e pelo menos dois aviões. Além destes bens, a Polícia acredita que ele havia registrado muitos outros em nomes de familiares ou de laranjas, principalmente no Brasil.
Muitas destas empresas formavam o Grupo Yporã, que ele administrava juntamente com mais de 800 funcionários diretos. Além destes, tenho mais de mil informantes que me contam tudo o que acontece na região. Um automóvel estranho não passa dez minutos em Salto del Guayrá sem que eu fique sabendo, dizia ele na época.
Seu poder era tanto, que quando o filho de um grande empresário brasileiro foi sequestrado no início dos anos 90, teve que recorrer a Dezinho para comprar os US$ 3 milhões exigidos pelos sequestradores. Ele era único que tinha esta fortuna disponível em dinheiro vivo.
É este espólio considerável que a CPI do Narcotráfico começa a rastrear.
O DESAPARECIMENTO DE DEZINHO
Em novembro de 1992, o governo paraguaio expediu um mandado de prisão contra Dezinho, acusado de receptação de carros roubados na fronteira. Ele foi avisado a tempo pelos seus informantes e fugiu às pressas. Entrou no Brasil com nome e documentos falsos de José Maria Pereira e se refugiou em uma fazenda que pertencia a ele, a Fazenda Velha, perto de Cuiabá. Estes foram os últimos passos conhecidos de sua vida. Do ano seguinte em diante, seu destino se transformaria num mistério.
No início de março de 93, duas crianças foram encontradas na calçada de um bairro de Cuiabá. No dia seguinte, quando as fotos foram publicadas nos jornais locais, uma mulher telefonou para o SOS Criança e disse que reconhecera as crianças, com quem estivera dias antes em uma festa na Fazenda Velha. A Polícia vai até a fazenda, aparentemente abandonada, e descobre que quem vivia ali desde sua fuga precipitada do Paraguai era Dezinho e sua esposa ele com o nome falso de José Maria Pereira e ela com o nome também falso de Maria de Lurdes Berino.
Uma das crianças, José Maria Júnior, seria filho do casal. A Polícia também descobriu que outras dez pessoas viviam na fazenda e que todas desapareceram. Enquanto investigava, a Polícia recebeu a informação de que todos os que viviam ali foram mortos.
Dias depois, a Polícia descobriu outra fazenda próxima a Cuiabá, a Fazenda Zé Antonio, que pertencia ao esquema de Dezinho. As quatro pessoas que viviam ali, entra elas um sócio de Dezinho em alguns empreendimentos, também estavam desaparecidas e a fazenda abandonada.
Nos dias seguintes, os corpos de três pessoas carbonizados e irreconhecíveis foram localizados em uma região deserta do município de Tangará da Serra. A polícia é informada de que são os corpos de algumas das pessoas que viviam na Fazenda Velha. A versão é a de que eles teriam sido sequestrados e depois mortos. Mas os corpos nunca foram reconhecidos e os outros corpos nunca foram encontrados.
ENTREVISTA EXCLUSIVA:
ELE DIZ QUE QUER VOLTAR AO BRASIL
Em abril de 1992, meses antes do seu desaparecimento, José Luiz Vanderleis, o Dezinho, montou uma verdadeira operação de guerra para receber o repórter Rogério Fischer e o repórter fotográfico Roberto Brasiliano, da Folha de Londrina, em sua fazenda em Salto del Guayrá, no Paraguai. Dezinho se dizia cansado de ser acusado injustamente e decidira falar com exclusividade ao jornal.
Havia um motivo estratégico para a entrevista. Por aqueles dias, Dezinho fora apontado como mandante de um plano de sequestro que não se consumou. E não estava dispoto a assumir o crime.
Os repórteres da Folha caminharam pela mata e cruzaram rios de barco durante a noite, cercados por seguranças de Dezinho. O rei da fronteira os recebeu em sua fortaleza paraguaia e falou durante horas seguidas. Negou os crimes atribuídos a ele e disse que nunca foi o Al Capone tupiniquim, como o chamava a Polícia. De quebra, ainda acusou o juiz Edgar Lippmann, de Foz do Iguaçu, de lhe pedir US$ 100 mil para relaxar os mandados de prisão preventiva que pesagem sobre suas costas e que o impediam de pisar em solo brasileiro.
Dezinho disse que a qualquer momento voltaria ao Brasil para tocar seus negócios e que estava disposto a enfrentar a Justiça para provar sua inocência. Por trás desta declaração havia uma ameaça velada. Pelo fato de não poder voltar ao Brasil, ele dizia que a Polícia jogava nas suas costas todos os crimes que ocorriam na fronteira. E que iria abrir a boca para revelar a verdade em muitas destas histórias.
De resto, Dezinho desfiou durante a entrevista uma longa cantilena. Disse que sua fortuna fora conquistada com trabalho duro, que nunca foi um criminoso, que era apenas um empresário bem sucedido e por isso despertava a ira de tantos inimigos. Ele se defendeu das acusações de contrabando de café que lhe valeram os dois mandados de prisão. Ninguém vai provar que fiz contrabando, porque sou um cerealista, tenho uma empresa de importação e exportação que é legal aqui no Paraguai. Aqui, a lei não exige nota fiscal e nem certificado de origem. Então as pessoas vêm me vender, e eu compro o café, justificou-se.Comissão quer atualizar a história dos dois empresários paranaenses acusados de ser reis da fronteira e comandar rede criminosa
Arquivo FolhaRAPIDEZAlemão, preso em 1988 e solto em seguidaArquivo FolhaMISTÉRIODezinho, em foto de 1992: desaparecido





