BRASÍLIA - A CPI dos Títulos Públicos quer descobrir esta semana quem comandava, no mercado financeiro, o esquema de lançamento e venda dos títulos públicos produzidos de maneira fraudulenta em três Estados e quatro municípios. Para isso vai ouvir pela segunda vez o ex-coordenador da Dívida Pública do Município de São Paulo, Wagner Baptista Ramos, e seus principais parceiros no negócio: os diretores dos bancos Vetor e Divisa e das corretoras Perfil e Negocial (todos liquidados pelo Banco Central). Eles serão ouvidos e submetidos a uma acareação na quarta-feira.
Nas últimas semanas, os parceiros do negócio dos títulos trocaram acusações via imprensa e até em seus depoimentos na CPI. Os senadores querem explorar essas contradições, mas temem que se trate de uma estratégia de defesa acordada entre os suspeitos. Wagner Ramos, por exemplo, foi acusado de ser o mentor do esquema pelo sócio gerente da Perfil, Luiz Calábria, em depoimento. Os donos do Vetor, Ronaldo Ganon e Fábio Naohum, disseram nos jornais que Ramos teria recebido R$ 36 milhões em comissões. O ex-coordenador defendeu-se na revista ‘‘Veja’’, dizendo ter recebido menos de R$ 1,5 milhão.
‘‘Eu preferia nem ouvir de novo o senhor Ramos’’, disse hoje o relator da CPI, senador Roberto Requião (PMDB-PR). ‘‘Seguindo as instruções de seu advogado, ele vai querer aproveitar o novo requerimento para corrigir as mentiras do primeiro, ao menos as já desvendadas, e livrar-se do crime de perjúrio.’’ De fato, no depoimeto à CPI, o ex-coordenador disse ter recebido comissão ainda menor, de R$ 150 mil, mas em seguida foram decobertas duas contas em seu nome no exterior, com depósitos no valor que ele agora confessou à revista. ‘‘Por mim, iria direto para a acareação’’, disse o relator.
O senador Eduardo Suplicy (PT-SP), no entanto, acha que Wagner ainda tem ‘‘contribuições a dar’’. Para ele, a mais importante é explicar como, ao lançar títulos de Estados endividados, os parceiros já tinham a certeza de que os papéis iriam parar na carteira de fundos de pensão e também de grandes bancos. ‘‘É muito interessante um ponto ressaltado por Ramos, quando ele diz que as pequenas corretoras só podiam comprar os títulos com dinheiro adiantado por alguém, provavelmente os grandes bancos’’, disse Suplicy.
O senador também acha que Ramos pode comprometer definitivamente o prefeito de São Paulo, Celso Pitta (PPB), ao confirmar o bom relacionamento de ambos com o ex-assessor Pedro Neiva, também envolvido no lançamento dos títulos. Os depoimentos da semana começam amanhã, quando serão ouvidos o ex-secretário de Fazenda de Alagoas, José Pereira de Souza, e o empresário Fausto Solano Pereira, da corretora Boasafra.

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